Os dragões do meu quintal


Meus queridos e queridas, a partir de agora esse blog muda de endereço. Vai pra junto de sus hermanitos, os blogues do Cuenca, da Cecília Gianetti, do André de Leonis e do Daniel Galera, que também estão pelo mundo tentado descer na estação certa do metrô e bolar uma história de amor. O endereço é: http://blogdoantonioprata.blogspot.com/

Continuem entrando e deixando seus comentários, que me dão força para levantar da cama de manhã e continuar a engolir sapos por aí. Beijos!



Escrito por Antonio às 13h44
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Meu negócio é a queratina e ninguém tem nada com isso

Quando eu me vi tão longe de casa, senti uma coisa assim, que vem de dentro, difícil de explicar. Uma liberdade inédita, como se agora, do outro lado do mundo, pudesse me dedicar a meus desejos mais profundos, sem a pressão da família e da sociedade.

Vocês devem saber: minha mãe é escritora. Meu pai é escritor. Meu padrasto é escritor. Até minha avó, que era educadora e cozinheira, virou escritora de uns tempos para cá. Só entrei nessa de literatura -- agora sei -- por causa de uma educação liberal muito opressora. Fui sufocado por aquele ambiente arejado, de modo que só agora, na China, tive a distância suficiente para ver o que sempre esteve diante de meus olhos: o que eu sempre quis foi ser cabeleireiro.(Ah, como é linda essa palavra, como as vogais se espraiam no ar -- ei, ei! -- tais quais melenas hidratadas ao vento matutino!).

 Pronto, falei! Não vou mais esconder a verdade de ninguém. Troquei a caneta pela tesoura e não há nenhuma vergonha nisso. E vejam só como a velocidade do crescimento econômico chinês é inacreditável. Cheguei quinta retrasada. No primeiro fim de semana tive essa espécie de chamado e descobri que minha missão na terra era cortar cabelos. Semana passada fiz um curso rápido. Segunda-feira o governo me deu um empréstimo, terça abri minha rede de salões Tony Studio e hoje ganhei meu primeiro milhão de dólares. Como diz minha querida Isabelle: estou tãããão feliz! Vejam só os cartazes, que lindos que ficaram.



Escrito por Antonio às 08h26
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Viela

 

Antes que as enormes torres de vidro brotassem do chão, Xangai era uma cidade ocupada principalmente pelos Nongtangs. O significado literal é viela, mas os Nongtangs são um tipo de moradia que pode ser descrito basicamente como quarteirões cheios de casas geminadas e com ruas internas. Mistura de arquitetura chinesa e ocidental, essa forma de moradia ainda sobrevive por aqui. Às vezes, ao lado de um baita shopping, você entra numa portinha e pronto, está numa vida interiorana, onde velhinhos jogam majong, mulheres lavam roupas, vizinhos conversam.

Os Nongtangs, hoje subdivididos, são moradia de gente pobre, espécie de cortiço, mas na sua origem alguns eram bem chiques. Mao, meu amigo, morou a infância toda em um deles, numa casa em estilo inglês, com lareira, despensa e o escambau. Mao, o presidente, tinha uma casa (secreta) num desses quarteirões mais elegantes da Concessão Francesa. Até o anos 50, 80% da população de Xangai morava dessa forma.

Hoje fui com Wenjian e Helen em dois deles. Wenjian estuda arquitetura e Helen inglês, na faculdade de Tongji. Eles me explicaram que essas construções tradicionais estão com os dias contados. Está tudo vindo abaixo para a construção da nova cidade. Wenjian disse isso com alguma pena. Apesar de serem quase cortiços, esse tipo de construção permite uma espécie de sociabilidade impossível num prédio. Uma versão chinesa de Onde está Wally tinha que incluir um Nongtang. Você vê uma mulher fritando carne de porco ao lado de outra que lava fraldas, enquanto uma velha costura, uns senhores jogam majong, crianças passam correndo e gatos e galinhas podem ser vistos vivendo em aparente harmonia. Por todo lado há uma quantidade absurda de objetos antigos que você não sabe bem se foram abandonados ou se ainda servem para algo. (Aliás, a quantidade de cacarecos aqui em Xangai é impressionante. Por todo o canto há coisas: um banco de bicicleta, um motor de sei lá o que, bottons do Mao sobre uma toalha, um computador sendo consertado por um sujeito acocorado...). (Continua abaixo)



Escrito por Antonio às 08h00
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Saindo do Nongtang roots, onde vimos “a vida como ela é” (ou era), fomos para Xiantiandi (novo mundo). O governo tirou os moradores de lá, reformou tudo e transformou em lojas e restaurantes para estrangeiros. Assim como o Pelourinho, em Salvador, La Boca, em Buenos Aires e provavelmente muitos outros lugares ao redor do mundo. Um pouco da “cara local”, sem nenhum morador local e uma fila de alemães e americanos que viajaram vinte horas para tomar um sorvete Haagen Daz e comprar uma jaqueta Tommy Hilfinger do outro lado do mundo. Vai entender.

Talvez Xiantiandi seja, em poucos anos, o único resquício do que já foi a cara da cidade. 

 

 

 

Interior de um Nongtang roots.

 

 

Nongtanga melhorzinho e prédios modernos de fundo, mais uma da "série contrastes".

 

 

Turista húngara ataca Homem-aranha indefeso em Xintiandi ,o Nongtang de botique.



Escrito por Antonio às 07h54
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Entrei numas de textura.



Escrito por Antonio às 06h59
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Há diversas modalidades de cócoras na China. Essa é a famosa "executive coffe break cocorinha". 

Embora não se veja, eis aí uma legítima cocorinha telefônica.

Homem-aranha, sem sucesso, investe numa marketeira cocorinha de boa-vizinhança... 

 E eu também confesso que andei treinando, longe da vista dos pessoal.



Escrito por Antonio às 06h43
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Última moda em Xangai é combinar a camiseta com as cores da bala.

 



Escrito por Antonio às 06h41
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Aqui a televisão de cachorro tem uma programação um pouco diferente.



Escrito por Antonio às 06h40
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Nanjing Road. Essa é a rua onde tentam te empurrar watches, t-shirts, ladies... A frase salvadora é "Bu Yao! Bu yao" (bravo), que significa não quero! Não quero!



Escrito por Antonio às 06h39
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Camera de 7.2 Mega Pixels. 1 GB de memória. Pouco uso. Único dono. Preço negociável. Tratar pelo blog.



Escrito por Antonio às 14h57
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Entretido com sorvete de limão, próxima encarnação de Buda reflete sobre os impactos da publicidade sobre a China.



Escrito por Antonio às 14h53
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"O Brasil é um país de contrastes". "O Brasil é o país do futuro". Acho melhor a gente ir atrás de outros slogans.

 



Escrito por Antonio às 14h48
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Com crescimento de 12% ao ano, chineses investem em puxadinhos.



Escrito por Antonio às 14h44
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Pearl Tower, outra belezura do Pudong da Mironga do Caburetê, vista de cima de Jinmao Tower.



Escrito por Antonio às 14h41
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Jinmao Tower, o maior prédio de Xangai. Ao lado tão construindo outro brutamontes. Aquela luz bíblica lá em cima é dos holofotes presos aos guindastes.



Escrito por Antonio às 14h38
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Aí está, pessoal, o Pudong, bairro Jetsons de Xangai. Até 1992 isso era tudo plantação de repolho, tomate, arroz...



Escrito por Antonio às 14h34
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Alucinações

 

A Cecília já tinha tido em Berlin. Aconteceu comigo duas vezes aqui em Xangai. Há três dias, no metrô, ouvi nitidamente “Putz, Raquel...”. Olhei pro lado e eram duas chinesas, falando chinês. Hoje, na base da Jinmao Tower, o predião orgulho da cidade, ouvi, com sotaque do interior de São Paulo: “cuidado cos braço!”. Virei-me imediatamente e dei de cara com uma senhora de uns setenta anos brigando, em mandarim, com o marido. (Pelo jeito cabisbaixo do velho, alguma ele tinha aprontado. No mínimo, tinha passado os braço nos peito da Raquel).



Escrito por Antonio às 14h06
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Xietu Lu!

 

Você não entra num táxi por aqui e diz seu destino ao motorista, porque ele não entende. Você não entra num táxi por aqui e mostra seu mapa ao motorista -- se seu mapa estiver em caracteres arábicos --, porque ele não entende. Ou você chega com um celular com algum falante fluente de mandarim do outro lado, ou pede para o pessoal do hotel escrever os endereços em ideogramas.

Eu já tinha lido isso no livro da Cláudia Trevisan (China, o renascimento do império), mas acontece que sou teimoso. No primeiro dia, tentei pegar táxi na raça. Brasileiro, imagina se não ia conseguir? O cara nem saiu do lugar. Eu disse Xietu Road. Ele disse um negócio que não entendi. Eu disse Xietu Road. Ele disse um negócio que não entendi. Brincamos disso umas seis vezes até que ele apontou para fora, eu saí com o rabo entre as pernas e fui de metrô.

A comunicação é impossível. Tô há dez dias treinando a embocadura para falar tchau, que é algo como tsá tiem, mas ainda não teve um ser humano que tenha entendido o que digo, umas dez vezes por dia, ao sair dos lugares. Eles me olham curiosos, pensando: será que é russo? Búlgaro? Esloveno?



Escrito por Antonio às 14h00
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Um home pra chamar de seu

 

Incrível como somos promíscuos quando se trata de trair a própria casa com uma outra moradia. Não, não é só a coisa física, a necessidade da cama e do chuveiro: tem sentimento. Basta espalhar uns papéis pela mesa, dominar a pia do banheiro com escova, pasta e desodorante, olhar em volta cinco minutos e, pronto, você já sente que rola assim uma química, sabe? No primeiro dia aqui, sem conhecer nada nem ninguém, voltei pro hotel exausto e tive essa sensação, home sweet home. Logo estranhei, que sweet o que, nem te conheço, quarto 3002, que intimidade é essa?!  Tarde demais. A cortina doirada, a cadeira baixa e a mesa alta, os dois travesseiros sobressalentes que pedi na portaria para corrigir os desníveis, as pantufas atoalhadas, o frigobar e a garrafa elétrica de esquentar água, tudo aqui parece ter estado ao meu lado desde tempos remotos. Foram só onze dias, mas a relação foi intensa. Já estamos íntimos.



Escrito por Antonio às 13h34
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Sapo por lebre

 

          Se eu fosse crente diria que foi Deus quem quis assim, mas como só acredito no que pode ser provado à luz da ciência, posso afirmar, com certeza absoluta: isso foi coisa do Saci.

          Eu ia comer num típico restaurante xangainês escolhido a dedo no guia, mas o hotel estava sem dinheiro para trocar meus dólares. Meus 100 yuans (pouco mais de 20 reais) não dariam para dois táxis mais a refeição. (O metrô fica longe, quando eu chegasse ao restaurante, já ia estar fechado). Saí andando aqui por perto, em direção “ao meu restaurante de sempre”, onde comi a costela da Manchúria. Fui lá só três vezes, mas já me sinto tão à vontade ali quanto na Mercearia ou no Filial.

O Saci é preguiçoso em dia de folga, mas quando pega no batente, meu povo, passa camelo em buraco de agulha e faz crochê com ponto duplo. O restaurante estava fechado. Quer dizer, estava aberto, tinha um monte de gente lá dentro, em torno de mesas cheias de comida e garrafas de cerveja, uma quantidade de cerveja que nunca tinha visto por ali (típico do Saci...), mas a garçonete se atirou na minha frente e disse: no open!

Saí andando, otimista – ainda não sabia do encosto --, pensando: tudo bem, é nessas horas que o inesperado entra em cena e coisas legais acontecem. Aquela coisa meio John Lennon de life is what happens we we’re too busy making other plans”, sabe? Sei...

Achei um restaurante uns trinta metros adiante. Entrei. Esse sim parecia fechado – todos os funcionários estavam numa mesa, esperando o jantar --, mas um garçom (seria ele o Saci em pessoa?) pediu para que eu me sentasse. Trouxe o cardápio: só em chinês, com fotos. (E  que tragam o ser que inventou que “uma imagem fala mais do que mil palavras” para a China e ele vai ver o que é bom pra tosse diante dessas misturebas dos cardápios). Eu estava com muita fome, depois de andar o dia todo pela cidade. Não quis arriscar. Precisava de nutrientes, não de antropologia.  Vi um negócio com cara de frango e apontei. Para não ter erro, bati asas e – juro, não foi a primeira vez nem será a última – fiz cocoricó. O garçom fez que sim com a cabeça.

Chegou a comida dos funcionários. Um banquete. Em bacias de alumínio, montes de legumes com macarrão e carnes variadas, além de um caixote (mesmo) de arroz e outras coisas que não sei o que eram... Aí veio meu frango, numa cumbuquinha. Parecia uma moqueca, mas a carne era muito branca para ser frango e muito, como dizer, muito articulada para ser peixe. Nessa hora o Saci devia estar rindo, se contorcendo de rir, tomando uma dose de pei jou (o destilado assassino dos chineses), no alto do prédio do outro lado da rua, me olhando com uma luneta.

Eu não tinha dúvidas, eu já tinha entendido tudo, se não é frango e não é peixe, é alguma coisa que está entre a água e a terra...  Mas, como um homem traído que, compelido por um masoquismo irrefreável, pede para ver as fotos da mulher com o amante, peguei os palitos e comecei a mexer na cumbuca. Claro, vi o que temia. As costelinhas do sapo. Sua caixa toráxica de cinco centímetros. Suas coxinhas, a anatomia completa do sapo ensopado na minha cumbuca.

Nas outras mesas o pessoal da cozinha devia estar fazendo apostas: “dez yuans que o gringo não come”. “Vinte que ele come. Gringo é tudo trouxa, vai ver nem sabe que pediu moqueca de sapo.” Fazer o que? Tava faminto, era tarde, eu tô na China... Comi. Chupei as cochinhas e tudo. Sabe que não é ruim? Nem ruim nem bom, não tem gosto de sapo, nem de peixe, nem de frango, nem de nada. Só de pimenta. Quanta pimenta! Coisa do Saci, claro.

Torço para que o hotel não tenha novamente problemas relativos ao câmbio, porque além de sapo eles comem grilo, água viva, cachorro, pepino do mar e o Saci, meus camaradas, está sempre atento. 

 



Escrito por Antonio às 13h31
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Opa, meu amigo Rodrigo avisou sobe um erro de hortographia daqueles de arrancar os cabelos. Cometo-os aos montes... Quem encontrar mais por aí, por favor, avisa... Obrigado.

Escrito por Antonio às 09h59
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O barulho

 

Meu quarto fica no trigésimo andar do prédio e não dá para a rua, mas ainda assim a grande porta de vidro que me separa da varanda é anti-ruído. Basta abrir um palmo para que a voz da cidade tome o quarto. Vocês sabem o que é isso? Essa massa sonora ininterrupta? Essa geléia grave, grossa, cinza, áspera, que não cessa um minuto nem de noite nem de dia? É o barulho que faz um país quando cresce 12% ao ano. É guindaste, é carro, é celular tocando, é freio de bicicleta, é britadeira, é a bola de basquete batendo no chão no colégio ao lado, é gente indo de um lado pro outro, é tudo junto fazendo um brrrruuuuummmmm compacto.

Não sei se a cidade rosna ou ronrona, mas ela não se cala nunca. Há holofotes de luz nos guindastes, um bairro está afundando sob o peso do aço e do concreto, um quarteirão de restaurantes construído faz dez anos foi posto abaixo para fazerem outro.

Uma das frases que mais ouço aqui é “faz quinze anos” ou “quinze anos atrás”. Pois bem, quinze anos atrás, em 1992 – a gente ainda estava com o gosto do fiasco do Collor e da seleção do Lazaroni na garganta – Xangai foi aberta para investimento externo. Pois bem, quinze anos atrás o Pudong, que eu arrisco dizer que seja o bairro mais futurista do mundo, era uma horta. Ali, onde eu fiquei pasmo olhando as torres de vidro e esperando os carros passarem voando, havia plantações de repolho e uns  porcos chafurdando na lama. Quinze anos. Mil novecentos e noventa e dois. Ou seja, ontem. É tudo muito rápido, muito potente, imponente. E barulhento.

Crescimento de dois dígitos não é apenas uma estatística nos jornais. Reflete-se na cara das pessoas. No jeito de elas andarem. Sabe quando seu time ganha e você entra no trabalho todo pimpão? Os chineses estão assim. Há uma euforia no ar. Ainda mais porque, há cinquenta anos, quando Mao resolveu industrializar o país da noite pro dia no que chamou de “Grande salto adiante”, tirando as pessoas do campo a mandando-as produzir aço, a China viveu uma fome tão terrível que, estima-se, mais de 30 milhões de pessoas tenham morrido. Elas estão aí, agora, falando no celular e usando Nike Air.

É difícil de acreditar, mas esses velhinhos que vejo na calçada jogando majong ou cartas nasceram na China imperial, viveram uma guerra civil, viram a ascensão do comunismo, passaram fome por anos, assistiram à morte de Mao e agora podem pedir o Quarteirão com queijo no McDonald’s e levar grátis super anéis atoalhados dos times da NBA. Confúcio, Marx e Ronald McDonald. É muita informação.

 

Seguuuuuuuura!

 

A gente lê o caderno Brasil da Folha de cabo à rabo e tem um único assunto: como fazer o país crescer? Aqui, como é do outro lado do mundo e é tudo ao contrário, eles discutem como fazer o país parar de crescer. E não chegam a nenhuma conclusão. O Brasil é uma paca lerda que pode morrer de marasmo. A China é um elefante supersônico que pode capotar ou estatelar-se num muro insuspeito.

Ainda não entendi bem qual é exatamente o problema de crescer demais, porque economia não é assim meu forte, mas já saquei algumas coisas:

A) O crescimento é eufórico e, se a indústria tiver os olhos maiores do que a barriga, dá xabu. Se eles entram numas e produzem dez milhões de penicos, por exemplo, mas só têm cinco milhões de novas bundinhas na praça, o preço do penico cai drasticamente e encalha tudo. Quer dizer, o país tem que ter sempre um olho nas bundas de seus patrícios na hora de crescer desenfreadamente.

B) Os bancos são todos estatais. (Parece que agora vão começar a abrir). A grana para comprar esses guindastes, pagar a conta de luz do holofote do guindaste e o salário do motorista do guindaste, portanto, vem do governo. Acontece que, pelo que tenho lido, os critérios para empréstimos e financiamentos nos últimos anos não foram os mais científicos. O Estado alimentou empresas estatais falidas por muito tempo e financiou outras tantas que, ao que parece, não poderão pagar. Ou seja, pode ser que até 30% da grana que o governo acha que vai receber, bem, sabe como é, não vai. E esse dinheiro, em última instância, é das pessoas que depositam seus suados caraminguás na agência da esquina. Com essa quantidade enorme de “títulos podres” (se eu estiver falando bobagem, por favor, me corrijam), a hora que todo mundo for fazer as contas vai ser o maior rebu. É como aquela mesa de bar por onde passaram vinte pessoas e sobraram duas, bêbadas, com uma conta de 546 reais numa mão e 128 reais (em notas amassadas de um e cinco) na outra.

C) Como todos nós que conhecemos os costumes dos elefantes alados sabemos, por mais que ele voe, voe e voe, uma hora tem que parar – e é melhor que seja aos poucos. Do contrário, pode haver o que os economistas chamam de hard landing. Não sei exatamente o que significa em economês, mas pense num elefante fazendo uma aterrissagem forçada e acho que estamos de acordo que não deve ser legal.

D) A China, esse elefante alado sob efeito de anfetamina, ainda tem pouco de sua economia voltada para o mercado interno. É exportando e importando que eles se seguram. 40% de todo cimento do mundo vem pra cá. Um terço do aço. É o maior comprador de soja e minério de ferro do Brasil. Imagina se eles quebram?   Sai de baixo...



Escrito por Antonio às 14h00
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Hype Hop Urra!

 

Hoje, meio que por acaso, descobri a rua mais bacanuda de Xangai. Tinha lido  numa revista sobre uma exposição chamada I love romance e achei que, bem, vinha ao caso. Quando eu vi, tava na Galeria Vermelho deles. A rua fica na Concessão Francesa, a parte dominada pelos Pierres e Jean Jaques no século XIX e que hoje é uma mistura de Jardins com Greenwich Village. É por ali que anda o pessoal que usa Mcintosh e óculos de aro preto.

A exposição era legal, um canadense que mora em Xangai há anos e usa uma técnica clássica chinesa, recorte em papel, para fazer umas imagens pop. Dois minutos na galeria e um cara veio falar comigo, num inglês perfeito, coisa rara por aqui. Era o dono da galeria e, como Xangai é Belzonte, acabei conversando por quase uma hora com ele.

          Jianwei foi para os EUA adolescente, estudou lá, virou pintor e, há poucos anos, vendo a efervescência econômica e cultural de Xangai, resolveu voltar. O cara tem um olhar bem legal, porque vê a situação de fora e de dentro, ao mesmo tempo. Falamos de Mao Tsé Tung, Picasso, Hip Hop, grafite, Brasil, economia e, quando achei que já estava abusando da paciência de  Seu Jianwei, resolvi sair andando pela área. 

          Entre 1949 e 1980, durante todo o período em que a China comunista estava fechada para o resto do mundo (filme albanês  era o máximo que eles tinham de programa internacional), as artes plásticas ficaram estacionadas. Comprei o Livro Vermelho de Mao e suas frases sobre arte são assustadoras. Para começar, o capítulo “Arte e cultura” é o penúltimo, só perdendo para “Estudo”, o que mostra o grau de interesse do Grande Timoneiro por esses assuntos, digamos assim, burgueses... Até 1980, portanto, ou se fazia arte revolucionária, ou se fazia pintura clássica chinesa, dentro da academia, e ainda assim meio escondido, porque se achassem que a montanha e o riacho que você pintou não tinham nenhum papel na educação das massas para o comunismo você podia ser tachado de “sequaz do capitalismo” e aí já era. Em oitenta abriu a porteira e a China viveu um boom de novos artistas. Hoje tem de tudo, desde o canadense misturando os recortes milenares com um clima meio Andy Warhol até, duas casas, adiante, um estúdio de grafite.

          No estúdio, um chinês do Hip Hop me recebeu igualmente bem. Falou para eu entrar e ficar à vontade. O lugar é dele e de um suíço. Falei do grafite no Brasil, contei que tinham dois irmãos fazendo muito sucesso, chamados “The Twins”, e eles disseram: “oh, Os Gêmeos!”. Caramba, os Gêmeos tão até em Xangai... Fiquei de arrumar o contato. Alguém aí sabe o e-mail deles?

          Saí do Hip Hop e entrei num café chamado Citizen, que vem a ser o Ritz deles -- o da Franca, não o da França. Um lugar todo descolado, com revistas descoladas, garçonetes descoladas e comidinhas descoladas. Comi um pene com frutos do mar descolado e delicioso e fiquei fazendo umas anotações no meu caderninho, me achando um escritor altamente descolado.

          O que eu escrevia enquanto o macarrão não chegava era: a entrada da China no capitalismo não vai inundar o mundo apenas com tapperwares, câmeras e cuecas, mas com bens culturais que nem podemos imaginar. O que sairá dessa pororoca entre um bilhão e trezentos milhões de chineses contra a rapa? Tem um bilhão e meio de pessoas pulando dentro da piscina: vai voar água pra todo lado.

Em poucos anos esses caras do estúdio e da galeria vão estar saindo pelo mundo, nós vamos ouvir hip hop chinês, vamos ver cinema chinês e ver nosso mundo re-significado pelos olhos chineses. Vai ser interessante ver o que eles pensam da gente. (Digo “a gente” e fico me sentindo meio como o escravo da casa grande que quer fingir que é da família, mas, oras bolas, mesmo na periferia, mesmo que escurinhos, “a gente” faz parte desse mingau chamado “o Ocidente”. Aqui na China, diante deles, eu percebo o quanto).

          Podemos esperar coisas fantásticas nos próximos anos.



Escrito por Antonio às 12h44
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Um país novo rico                                 

 

Jianwei está empolgado com o crescimento e a abertura da China, mas um pouco decepcionado com os novos ricos que, se puderem, passam com seus BMWs dourados com banco de zebra por cima da arte, cultura e educação.

          É evidente e indisfarçável que a China é um país de novos ricos. Vê-se no exagero de neons, na quantidade de carrões, na cortina dourada do meu quarto de hotel, no buquê de ursinhos de pelúcia (juro, um buquê com 12 ursinhos de pelúcia espetados nuns palitos) à venda nos shoppings, na quantidade de shoppings, nas mulheres do metrô que misturam jaqueta Puma com óculos Chanel e bolsa Louis Vuitton. Mas também faz parte do novo riquismo a maneira simpática de tratar todo mundo, o desejo de se enturmar com os estrangeiros, a felicidade estridente e sem culpa ou auto-censura. Perguntei a Jianwei: “escuta, cês já tão ricos há alguns anos, quando é que vocês vão ficar blasé?”. Ele riu e disse que já tinha uns endinheirados que sacaram que é chique ser mau-humorado.

Eu espero que os chineses continuem caipiras. Vai ser engraçado ver os europeus se contorcendo diante dos buquês de ursinho que inexoravelmente surgirão nas mais diversas áreas. (Segurem-se em suas poltronas Barcelona, bacanudos do mundo, porque um espectro ronda a Europa, um tsunami kitsch!). Vai ser engraçado ver os americanos, que até ontem eram da turma que bebia a lavanda e escandalizava a aristocracia decadente européia, pagando de tradicionais. Imagino que daqui uns anos rir da breguice dos chineses vai ficar na moda entre os descolados que perderam seu posto de donos do mundo.

Não tenho dúvida: se explodir uma guerra entre o Kitsch e o Blasé, me alisto no exército do Kitsch imediatamente. Darei a vida, se preciso for, para que os meladamente apaixonados buquês de ursinho prevaleçam sobre a mal humorada fuça dos donos da Kultura. Que venham os chineses!



Escrito por Antonio às 12h43
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Eu consegui! Eu consegui! Agora esse blog terá imagens. E nada melhor para começar do que o aquário de sapos do supermercado da esquina. Quem, no entanto quiser boas fotos, não essas toscas que eu tiro, entre no site do Pablo -- http://www.flickr.com/photos/18095686@N00/ --, um figura que eu já conhecia do Brasil e cruzei aqui num restaurante italiano. (Como disse minha tia Rita, num raro instante de impudícia, "o mundo é um cu de mosca"). Agora com licença que vou postar mais fotos.



Escrito por Antonio às 13h30
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          Polainas Tumts Tumts

 

Primeira ressaca chinesa. Ainda bem que já havia me precavido comprando o sensacional Kagome. O suco, cujo nome pode  afastar o brasileiro mais pudibundo, é a versão chinesa do V8, mistura de vegetais capaz de transformar o mais combalido Mun Rá em Leo di Caprio com apenas 250 ml.

Mas há também a ressaca estética a pesar no fígado de minh`alma. O que era aquele lugar, pessoal? Para o choque que foi conhecer o club O2 não há Kagome, chá verde ou Eparema que dêem jeito.

Peguem o decorador das casas noturnas do Guarujá em 1983 e congelem. Tirem-no do freezer em 1994 e levem-no para Las Vegas por uns três dias. Congelem-no novamente. (O processo de esfria esquenta é fundamental para o resultado final). Tragam-no finalmente à vida em 2007, joguem em suas mãos um cartão sem limite de crédito e digam: crie, coração. O resultado, provavelmente, seria o O2.

A entrada era um corredor com um chão transparente repleto de luzinhas coloridas, compondo uma espécie de polaina luminosa. As paredes tinham espelhos tortos que refletiam as imagens caleidoscopicamente. (A impressão que dava é que eu ia dar no disco voador da Xuxa, não numa casa noturna em Xangai).

Lá dentro, dois terços eram chineses e o restante o que aqui chamam de expats, expatriados – nome um pouco soturno, eu acho, pois parece que estão aqui  condenados ao ostracismo, mas isso é outra história.

Uns sofás com mesas de centro, onde garrafas de Chivas e bandejas de frutas eram consumidas por chinesas lindas e chineses mais velhos, alguns gordos, inclusive -- o que me pareceu suspeito nessa terra de manequins -- dava um ar de bar de mafioso cubano em Miami, desses de filme americano. Parecia que a qualquer momento um gerente de tweed ia chegar na mesa de um gordão de terno branco e dizer: “ei, baby face, Jack Perneta está na sua sala”. O gordão bateria com a bengala na mesa e diria: “quantas vezes já disse que não quero ser incomodado quando tomo meu gin tônica, Noodles?!”. O gerente, tremendo, responderia: “E-ele di-disse que é urgente, Mr. Baby...”. O gordão daria um beijinho em sua Jessica Rabit de olhos puxados, que fumaria com luvas e piteira, e diria: “já já continuamos nossa conversa, amorzinho, tenho que tratar de negócios”.  

Não sei se foi o arquiteto do Guarujá quem contratou, mas numa bancada uma puta tailandesa de miniblusa e minishort dançava lascivamente. Paquita para adultos, pensei, mas logo reprimi meu pensamento, porque era um pouco triste aquela moça ali, trabalhadora solitária no meio daquela babel alcoolizada do proto-super-capitalismo xangainês. (Ui, ficou muito pretensiosa essa frase?).

Só reconheci duas músicas, embaixo da maionese sonora que o DJ (brasileiro) colocava em cima: Another brick in the wall e j’ai ne t’aime plus, mon amour, do Manu Chao. A cerveja custava os olhos da cara e, sob o efeito de muitas delas, uma enorme nórdica maluca quase levou os meus embora, quando resolveu tirar meus óculos na pista de dança. Foi a única vez na minha vida que pensei em bater numa mulher. Seriamente. Travamos uma espécie de judô adaptado (eu só pensava assim: se a mina é desse tamanho, imagina o namorado, mas felizmente, se ele existia, não apareceu) e consegui corrigir meus 5 graus de miopia antes que aquela viking desvairada tentasse morder a lente ou qualquer coisa do gênero. Coisas estranhas acontecem em Xangai. (Continua embaixo).



Escrito por Antonio às 04h53
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Depois das duas, metade dos chineses estava dormindo nos sofás, a outra metade vomitando no banheiro. Segundo me disseram, isso é normal. Eles se atiram ao álcool com a mesma avidez que a outros produtos, no recém adquirido consumismo chinês, mas a pouca resistência dos orientais à bebida faz com que, depois de uma certa hora, as baladas fiquem com cara de festa de formatura da oitava série.

Fui ali com uma turma de brasileiros. Adilson e Shalom, advogados de Governador Valadares, Renata e Pablo (conexão Vera Cruz, arquitetos), Fernando, Everton e Ronson – meia, zagueiro e atacante do Shanghai Pop Stars (se não me falha a memória), Cris e Sandra, arquitetas gaúchas, mais três chineses, um cubano, um francês e uns agregados que estavam muito longe na mesa e com quem não cheguei a interagir.

Perguntei aos brasileiros se alguém já tinha conseguido contatos imediatos de terceiro grau com alguma daquelas belas moças do oriente. Quanta tristeza nos rostos dos patrícios, minha gente. Nada! Nem os jogadores conseguiram ir além do Ni hau, o que mostra que, para infelicidade dos três, o incipiente capitalismo chinês ainda não produziu alguns de nossos globalizados tipos sociais: as Marias Chuteiras. (Quanto tempo leva para a infra-estrutra criar a super-estrutura, meu caro Marx?). (Ah, agora sim tá pretensioso!)

Ao longo da noite, Everton, meia esquerda, acenava de longe, com um copo de vinho na mão: “aê escritooooooooorrrrr!”, ao que eu respondia, com uma long neck de 50 yuan: “aê meeeeeeia!”. (Aos chatoboys da Lei Rouanet: peguei no cartão). Gente finíssimas esses expats das chuteiras.

Saí à francesa umas duas e meia. Na rua, em frente ao club, uma chinesa linda não parecia nada bem em sua cocorinha etílica. “Do you need some help?”. “No, thanks”. Saí rapidinho dali. Vai que era uma das concubinas de Baby Face?



Escrito por Antonio às 04h52
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Ai, desculpa, escapou

 

 

E eu aqui, que, segundo a Veja, tenho que voltar dessa viagem “apenas com uma história de amor na bagagem”, começo a ficar preocupado. Como vou ambientar minhas ordinárias experiências neste solo de polainas luminosas, torres de 400 metros, revolução comunista, bronzes de 3 mil anos, revolução capitalista, Confúcio, concubinas, ópio e I-pod?

Quanto mais olho a cidade, leio sobre sua história e fico de queixo caído com tudo isso, mais vasculho meu baú interno em busca de um enredo e penso: xiii, não bate. Acontece que tudo me é tão estranho e distante que escrever uma história de amor que se passe em Xangai parece algo como cultivar marias sem vergonha no deserto, plantar bananeira no teatro municipal, fazer um tostex na sala de aula.  

Ao contrário do que acham muitas das pessoas que desceram a lenha no projeto, escrever um romance não é como soltar um pum. Você não acorda de manhã e diz, opa, olha o que eu achei aqui na minha cabeça, um romance! Não dá pra ser picareta nesse trabalho. Eu, pelo menos, não consigo. Nem pretendo. Tenho que achar uma coisa de verdade para dizer, nesse cenário que para mim ainda é de mentira. Ou então fazer o cenário me dizer algo de verdadeiro. É possível, em um mês?

Entendo melhor a Sofia Coppola agora. Essa é uma saída, usar o exterior muito estranho, exagerar nas suas cores e estereótipos e olhar pra dentro. (Bom, se tivesse uma Scarlett Johansson aqui no meu flat as coisas ficariam mais fáceis. Mas vou lá na esteira todo dia de manhã e nada).

Eu já tenho uma idéia para ambientar a história. Quero fazer uma Xangai que seja a mistura do fim do século XIX com essa do século XXI, uma coisa meio futurista, entre Brazil, o filme, e os quadrinhos  do Moebius. Riquixás voadores e o escambau. Mas aí seria meio ficção científica. Pode ser. Talvez o meu erro seja procurar a história numa chave realista. Quem sabe partir para a farsa, para um negócio mais O guia – amoroso -- do mochileiro das galáxias? Acho que tem que ser uma coisa tão absurda como o skyline do Pudong -- que vocês não devem saber o que é porque ainda não consegui fazer com que as fotos da minha câmera vão parar dentro do blog. Ainda há muito o que fazer aqui na China. A ressaca passou. Vou ali fora atrás de um enredo e já volto.



Escrito por Antonio às 04h42
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