Os dragões do meu quintal


Dia primeiro de maio é feriado aqui também. Espera-se que 150 milhões de chineses saiam de viagem. Imagina só a Tamoios deles? Se engarrafar, melhor parar no Rancho da Pamonha e esperar dois meses...



Escrito por Antonio às 12h39
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Mãos dadas

 

No banheiro do Ó do Borogodó tinha aquela piada boba: “se todos os chineses derem as mãos... quem vai fritar o meu pastel?”. (Digo boba porque não quero que falem com esse desdém dos meus amigos, ora). Acontece que os chineses já deram as mãos. Todas as mulheres, especialmente as mais jovens, andam de mãos dadas, braços dados ou abraçadas com as amigas. Muitos homens também. É bonito de se ver. Principalmente para nós, brasileiros bipolares, que nos momentos de euforia acreditamos ter a patente do afeto, da dança, do gozo, enfim, da felicidade. 



Escrito por Antonio às 12h13
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Na maioria do tempo sou o único ocidental. No metrô, nas ruas, no ônibus e nos restaurantes. Quando eu entro, todo mundo olha. São discretos, mas eu percebo. Pela cara das crianças, no entanto, vejo como ainda somos estranhos -- nós, essas pessoas de olhos grandes. Ontem, na esteira rolante do supermercado, uma menina de uns quatro anos, no colo da mãe, quase chorou, olhando pra mim. Apontou e falou alguma coisa. Levou um esporro. Provavelmente uma lição de moral: "eles são feios e peludos mas são seres humanos e devem ser respeitados, minha filha".

Escrito por Antonio às 03h40
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Tinha uma costela no meio do caminho. No meio do caminho tinha uma costela.

 

Meu caro Fabrício. Hoje faz uma semana que estou na China e por isso Deus – que pode ser um cara bem bacana quando acorda de bom humor – resolveu dar-me um presente: a costela da Manchúria. Minha vida pode ser dividida entre antes e depois desse jantar.

          Fabrício, liga já pra Santo Anastácio e chama seu pai. Não importa que sejam três e meia da manhã e ele atenda de pijama e assustado: Paulinho Corsaletti precisa saber que a costela dele acaba de cair para segundo lugar no ranking mundial. Os caras da Machúria, meu amigo, acabam de desbancar o Oeste Paulista.

          Eu sei que a costela do Paulinho leva onze horas para ficar pronta, mas a da Manchúria levou cinco mil anos. E o tempo de preparo da costela-- foi seu pai mesmo quem me ensinou -- é que faz toda a diferença.

          Quando o primeiro faraó mandou construir a primeira pirâmide, ordenou que colocassem a costela pra assar. Morreu no dia em que a primeira gota de gordura pingou na brasa, com a sensação de missão cumprida.

Quando Moisés fugiu do Egito, muitos séculos depois, alguém perguntou: será que a gente desce a costela para a grelha? “Não!”, disse o faraó (tataraneto daquele que iniciou o churrasco), “ainda leva tempo” -- e mandou jogarem o herege no Nilo, amarrado ao nariz da Esfinge. (Dali em diante, sempre que um súdito olhava aquela estátua mutilada, lembrava do respeito que deveria ter pela costela primordial).

          Quando Jesus Cristo foi crucificado, os legionários romanos que cuidavam do churrasco deram uma olhada e pensaram em fatiá-la para acelerar o processo. Deus irou-se. Jesus ainda tentou defendê-los: “perdoai-vos, Pai, eles não sabem o que fazem”, mas Ele não quis nem saber: mandou fogo e enxofre dos céus e fez com os fariseus o que eles queriam fazer com a costela: torrou.

         Os templários (organização a quem equivocadamente se atribuiu a tarefa de procurar o Santo Graal ou proteger o descendente de Cristo, mas cuja única função era zelar pela correta concretização do preparo da costela) foram os responsáveis por levar a carne para a Manchúria, a fim de afastá-la das invasões árabes que estavam na Europa unicamente para tentar roubar vocês sabem bem o que.

        Foi Leonardo da Vinci, o gênio, quem soube o ponto de descer a peça e aumentar o fogo, para que, nos próximos séculos, ela criasse uma casca crocante por fora, sem perder a maciez quase cremosa de dentro. Chegou à conclusão do dia e hora exatos após complexos cálculos astrológicos e astronômicos, tendo consultado alfarrábios babilônicos, persas e hebraicos -- em especial um pergaminho de Paracelso de nome Da costelae preparatum.

 



Escrito por Antonio às 10h44
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          No século XX, os japoneses invadiram a Manchúria, mas soldados de Mao Tsé Tung e do Kuomintang, lutando lado a lado, conseguiram proteger a iguaria. O homem chegou à lua, caiu o muro de  Berlim, clonaram uma ovelha, Clodovil foi eleito deputado federal e outras coisas incríveis aconteceram, mas de todas elas, a mais fantástica foi: ficou pronta a costela da Manchúria. (Semana passada, um beócio de Presidente Prudente, infiltrado na China pelo Tinhoso com o único propósito de estragar a costela, ainda falou, para o sábio chinês, de 114 anos, que terminava o cozimento de acordo com escritos de Confúcio: “vamos jogar uma cerveja em cima, pra amaciar?” O sábio cutucou a têmpora do prudentino imprudente com seu palito e fez com que ele imediatamente caísse fulminado).

Às sete e meia da noite do dia vinte e seis de abril do ano da graça de 2007, faltava apenas meia hora para o momento culminante desse processo civilizatório de 5 mil anos.  Mas eu ainda não sabia de nada, sentado no banco de madeira, folheando o cardápio, ao escolher a até então desconhecida “costela da Manchúria”.

          Eu quis a costela por sua concretude. Estava cansado de misturas, confusões, molhos e recheios difusos. Disso a minha vida aqui já está cheia, é só olhar pro lado, para cima ou para baixo, para fora e para dentro: estou no meio de uma wok existencial, de um yaquissoba cultural, não sei o que é porco, o que é obrigado, o que é frango, o que é gafe, o que é amor verdadeiro ou Rolex falsificado. A costela – pensei --, a costela será uma âncora de solidez simbólica nessa sopa de ideogramas, uma bóia de contornos claros nesse picadinho de sentimentos. E foi aí que a pedi, colocando o dedo indicador sobre a foto, em silêncio, como o momento – solene, agora sei – merece.

          Não vou descrevê-la para não poluir a divindade da experiência com nossa vaga, humana e imperfeita linguagem. Só o que digo, Fabrício, é o seguinte. Liga pro seu pai já e explica direitinho isso tudo aqui que eu tô falando. Manda ele avisar o Buinha. Chama o Frango e o Franguinho, o Caio, o Conrado, o Camilo, o Gustavo e o tio Wilson. O Chico e o Paulo e quem mais quiser. Vamos organizar uma expedição urgente para a China. Todos têm que provar a costela da Manchúria. Só isso importa nesse momento.

Pára! Não faça essa cara de “como você é engraçado, Antonio...” Eu tô falando sério. A cidade está cheia de gente que viajou quase 30 hora por motivos tão fúteis como assinar contratos para a fabricação de telefones celulares, discutir detalhes da venda de shoyu para a Bélgica, negociar preços para compra de saltos de sapatos com Nova Hamburgo. Provar a costela da Manchúria, de todas as coisas da vida, é a mais importante. Diga que venham apenas os homens. Costela é coisa viril. Soninha, Leca, Belle, Mari e as outras hão de entender. Eu reservo hotel. Vendam os carros se preciso for. Tragam pandeiro, timba e vioão, que a gente vai cantar marchinhas de carnaval por toda a noite em Yuyuan garden, depois da costela, que nem copa do mundo. Mas acima de tudo, impreterivelmente, por tudo o que é mais sagrado, Fabrício, venham imediatamente. Parece que não eram muitas as peças que o faraó pôs na brasa. Outra fornada, só em 7007.



Escrito por Antonio às 10h44
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Eles são todos chineses! Todos! Para todo lado que eu olho, chineses, falando chinês, pensando chinês, comendo em chinês. Isso não deixa de me assombrar. 

Escrito por Antonio às 07h53
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Abaixo a dentadura

Fui tirar uma dúvida sobre olmos e sequóias na Wikipédia e o site não entrou. Achei que tinha dado pau, tentei de novo, nada. Uma hora a ditadura tinha que dar as caras: Wikipédia is not welcome na República Popular da China.



Escrito por Antonio às 10h50
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Heavy Metal em Tongji

 

Quando eu vi, tava tocando heavy metal com Shu Xin -- ou Mister Hotness, como Virgínia e De la Rosa, as duas mexicanas apaixonadas, chamam o galã chinês de braços tatuados, cabelo na cintura e calça jeans justa e rasgada. Ele na guitarra, eu na bateria. Fazíamos uma dupla estranha.  “Onde vamos parar com toda essa abertura?”, pareciam dizer os olhos esbugalhados dos velhinhos e velhinhas que passavam pela calçada e metiam a cabeça dentro da lojinha, quase uma garagem, no extremo norte de Xangai.

Quando cruzei a cidade do sul até o norte, pela manhã, não imaginava que iria acabar tocando bateria com um heavy metal simpático apelidado Mister Hotness. Fui até a universidade de Tongji, onde minha amiga Renata está estudando chinês. Lugar lind;issimo. Prédios centenários se misturam com construções modernas, em meio a chorões deslumbrantes, carvalhos e outras dessas árvores elegantes de clima temperado que devem ter nomes como olmos ou choupos ou sequóias... Flores por todo lado.

Uma enorme estátua de Mao, na entrada, acena para ninguém. Os jovens que passam de braços dados ou sós estão mais concentrados em seus I-pods do que naquela enorme mão de pedra que, até outro dia, apontava os rumos da nação. A deslumbrante primavera de Xangai só torna mais obsoleta a estátua do homem que, há pouco mais de quarenta anos, ordenou a jovens como aqueles, em universidades como aquela, que arrancassem as flores dos vasos  – supérfluas à revolução do proletariado – e a grama do chão – planta burguesa, símbolo da dominação inglesa.

Cruzamos o campus e encontramos as duas mexicanas num restaurante muçulmano chinês. Quando entramos ali eu disse: Renata, se eu mostro a foto do restaurante pro seu pai ele vai te mandar mais dinheiro no fim do mês só para garantir que você coma num lugar melhorzinho. As moças me disseram que podia confiar. (Só não devia, em hipótese alguma, ir ao banheiro, porque a experiência seria traumática). E foi ali, enquanto comíamos um macarrão com carne de cabrito e coentro e outro com frango e pimentão, deliciosos, que elas começaram a falar de Mister Hotness, quase babando.

Shu Xin é um personagem de Nick Hornby, na versão chinesa de Alta Fidelidade. Passa o dia na loja de guitarras, sozinho, tocando e maldizendo o povo de Xangai que, em sua visão, só pensa em dinheiro e não entende nada de rock’n roll. De umas semanas para ca, no entanto, sua solidão é interrompida todo dia na hora do almoço pelas duas mexicanas que vão lá, conversar e sonhar com cenas de uma novela sino-mexicana. A conversa é difícil porque ele sabe muito pouco inglês. Segundo elas, apenas algumas frases aprendidas em filmes pornôs como “my dick is big and strong!” “let me see those horny boobies, baby” e outras sentenças que não se aprende no CCAA. Elas não se importam. Ficam ali a tarde toda, entre guitarras, noodles e suspiros.

Depois do almoço, fomos até a lojinha. Uma bateria velha fica bem no meio do espaço de uns quatro metros quadrados. Perguntei se podia tocar. Ele disse que só depois das duas da tarde, regras do condomínio. Passeei pela universidade e voltei lá pelas três. As mexicanas já haviam ido embora, Renata estava estudando para a prova. Cheguei meio tímido, disse Ni Hau (olá), fiz uma mímica de “eu na bateria e você na guitarra, cara!”, ele acenou com a cabeça e começamos.

Se eu fosse um pouquinho melhor poderia aplicar aquele chavão de que conversamos na linguagem universal da música, mas não toco desde a adolescência (quando eu já era ruim), de modo que minha habilidade no esperanto musical é quase tão sofrível quanto meu mandarim. Sei é que fui feliz. Tocamos por uma meia hora -- prova de que a censura chinesa não é assim tão rigorosa.  No fim ele deu o cartão, eu dei meu msn e agradeci do fundo do coração (vocês não sabem como gosto de tocar, mesmo mal, bateria). Ele foi simpático como todos os chineses. “No thanks! No thanks! Come back, you want, come back, we play”. Quis retribuir de alguma forma. Quase falei pra ele, ô, Shu Xin, essas mexicanas aí, tem jogo, viu? Pode apostar, elas tão na sua... Já pensou, as duas juntas, você aplicando todo o inglês que aprendeu nas suas tele-aulas? Achei, no entanto, que Virgínia e De la Rosa, como duas boas latinas, devem saber a hora de partir pro ataque.

O que não é a globalização, não?



Escrito por Antonio às 09h48
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Miojo que passarinho não come

 

          Além de Mao, Shirley, Helen e Caxambu, tenho outra amiga na China, de quem ainda não falei: Renata Sung. (Já dá para fazer um time de futsal com minha turma). Filha de mãe chinesa e pai brasileiro, Renata veio estudar mandarim aqui por um ano. Foi ela quem me levou para ver os sapos e enguias no Carrefour, me ajudou a comprar uma câmera fotográfica (dura na queda na arte da pechincha) e, ontem, me apresentou ao corredor de miojos do supermercado. Como ela diz: irado! Melhor ainda, ela me passou a técnica de sobrevivência na China: você esquenta água na garrafa térmica elétrica usada para o chá (tem uma aqui no quarto, em cima do frigobar) e a despeja no pote de miojo, no melhor estilo Macgiver na cozinha. Comprei logo uns cinco potes coloridos.

Ontem fiz meu primeiro miojo. Você saca logo a sofisticação do produto: eles não têm apenas um saquinho com aquele pó radioativo, mas três: um com o pó, outro com temperos e uns floquinhos de algo que intuo ser carne desidratada e outro com uma espécie de gel laranja. Acho que o último era pimenta – ou urânio enriquecido?

Renata bem que me avisou: “esses que têm uma malagueta desenhada são muito fortes, viu?” Não dei ouvidos. Quase morri. Fiquei na varanda, com a boca aberta no trigésimo andar, esperando que o vento vindo da Sibéria acalmasse minhas judiadas papilas. Tudo bem. Como dizia Nietzsche, o que não me mata me fortalece. Ou, como dizia tia Corália, o que não mata engorda.

 

 

Pantufas

 

          Minha amiga Bia pediu para eu falar mais sobre pantufas. Não sei muita coisa, só sei que não se entra calçado em casa. Você deixa o sapato ao lado da porta e eles te dão umas pantufas. Na casa do Mao tem um armário ao lado da entrada, onde eles guardam umas sobressalentes, embaladas em plástico e tudo. Não sei se depois eles jogam fora ou embalam de novo.

          Aqui no hotel é a mesma coisa. O funcionário veio trazer um travesseiro, deixou o sapato no hall e entrou de meia. Será que eu deveria ter pantufas para oferecer a ele? Vou perguntar pro Mao.

 

Cócoras

 

          A leitora Nana caçoa da minha incapacidade de acocoração e sugere que eu faça yoga ou pilates. Cara Nana, em primeiro lugar, queria dizer que sou bastante alongado (para um homem). Em segundo: não é qualquer cócoras essa praticada por aqui. Trata-se de toda uma técnica milenar, que exige não só alongamento, mas equilíbrio e, acredito até, paz de espírito. Acho que sou capaz de aprender a cerimônia do chá inteira antes de me agachar como eles sem cair de bunda.

 

Slim Ling Ling

 

          Os chineses são todos magros. Comem esse monte de carne e macarrão e têm esses físicos de Bruce Lee, lépidos e fagueiros. Qual será o segredo? Até agora, vi uma única chinesa gorda. Tentei pegar a câmera, correndo, para filmar, mas ela também era lépida e fagueira, apesar do sobrepeso, e sumiu na multidão. Seria coreana?



Escrito por Antonio às 23h37
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Na photo

 

Ontem fui subir numa torre enorme que tem em Pudong, para ver a cidade lá de cima. Na base da torre, passei atrás de um chinês que posava para uma foto e clic, percebi que tinha ido parar dentro da câmera de seu amigo. Fiquei com uma sensação estranha e imediatamente me solidarizei com esse pessoal que não se deixa fotografar porque diz que a câmera rouba a alma.

Fiquei imaginando minha imagem ali, transformada em megapixels, no bolso do chinês. Milhares ou milhões de zeros e uns colocados lado a lado que formam meu nariz, minha orelha, meus olhos, a perna direita levantada, a perna esquerda apoiada... Aí fiquei me imaginando indo no bolso do chinês para uma cidadezinha perdida no interior da China. A família do cara olhando a foto, me vendo ali atrás -- o gringo no fundo da foto --, figurante desconhecido, ignorado, sem nenhuma importância. E vai que o cara imprime a foto, vou ficar guardado no fundo de uma gaveta numa cidadezinha no interior da China, amarelando (foto digital também amarela?), até o dia, quem sabe, que ele faça uma limpeza, ou morra, e os filhos joguem a foto no lixo, e eu, o chinês que posava e o maior prédio de Xangai vamos parar num forno, ou num aterro. Cruz credo.

Depois de subir na torre fui a um museu que contava a história da cidade, mas não prestei atenção em muita coisa: só conseguia reparar nas pessoas das fotos antigas, para sempre presas ali dentro, com seus cachimbos, cartolas, bigodes e almas amarelando diante da visitação pública. Todos mortos, que nem eu, um dia, na foto do chinês.  



Escrito por Antonio às 13h37
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Contrapeso

 

Deito e durmo, exausto, antes da meia-noite. Nunca foi tão fácil pegar no sono. Desde que cheguei, acho, sonho com a casa da minha infância. Às vezes ela tem a mobília do meu apartamento atual, às vezes está fechada há muitos anos e eu dou uma volta pelos cômodos, lembrando de cada coisa. É um pouco triste, eu percebo que aquilo não me pertence mais, sinto que estou num lugar que acabou, mas é intenso e talvez bom. Também tenho visto rostos doces de mulheres que amei em tempos idos – true love, Helen e Shirley, I know. Só o rosto, o sorriso, essa capacidade que a mulher amada tem de ninar nossas angústias. (Ê, Edipão brabo!). É o pessoal das coxias dando uma força, calçando a mesa bamba do estrangeiro com algo de familiar.

-- Atenção atenção, inconsciente?, Superego falando, copia?

-- Inconsciente na escuta, QAP. 

--Negócio é o seguinte, o cara tá na China, perdidaço, vê aí no baú imagens from the heart que que tem de bom pra gente dar uma base pro garoto, QSL? 

-- Positivo. Gol do Corinthians? Sonho erótico? Vôo?

-- Negativo, precisa pegar pesado, fala pros estagiários irem nas pastas Infância e Amor e fazerem uma pesquisa boa.

-- Positivo. Uma e meia tá aí.

-- Negativo, o cara tá dormindo cedo, onze e meia tem que tá aqui senão vai começar o REM e a gente vai ter que passar material antigo. E se só tiver a fita “Pelado na escola” vai dar uma desestabilizada legal.

-- Onze e meia fica difícil, Super, tem muito material recalcado e cê sabe como é que é a burocracia pra liberar.

-- Diz que eu mandei passar, traz aqui que eu carimbo.

--Beleza. Câmbio.

-- Câmbio.

Eu estou na China nas melhores condições possíveis, não queria estar agora em nenhum outro lugar da Terra, mas ser estrangeiro traz sempre alguma dor. Não falo daquele medinho de fazer as esperadas cagadas inevitáveis, como entrar pela porta errada do ônibus, meter o cartão do metrô de cabeça pra baixo, embolar o pessoal na catraca e levar um esporro em mandarim. Falo dessa tristeza de estar longe de todo mundo que a gente ama, das pessoas que sabem quem a gente é. (Nos poucos momentos em que estou no hotel fico olhando os bonequinhos vermelhos do messenger e torcendo para que algum fique verde, mas com 11 horas de fuso, só dá desencontro).

Lembro que quando era mais novo não entendia alguém ser condenado ao ostracismo. Achava que me sairia numa boa, viajando por aí. Talvez porque quando somos muito jovens ainda não percebemos que a única coisa que importa são as pessoas que a gente ama.  E o trabalho, claro, mas trabalho faz-se em qualquer lugar. Até no trigésimo andar de um quarto de hotel na China, enquanto nenhum fucking bonequinho muda de cor.

(Imagina só que terríveis os sonhos dos exilados com a Terra natal?).

 



Escrito por Antonio às 11h19
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Mao na roda (eu sei, eu sei, mas não consigo evitar...)

 

Houve um longo mês durante o qual Xangai foi uma selva de 18 milhões de desconhecidos do outro lado do mundo. Até que o Joca Terron (que vai pro Egito nesse mesmo projeto maluco) e a Isabel (que vai ficar com saudades), me disseram: “Você tem que conhecer o Mao, o cara é uma figura”. E a China imediatamente ficou mais confortável.

Mao teve um restaurante chinês na Pamplona por anos e agora voltou para a China. Trocamos e-mails e ele me pediu umas caixas de própolis. Quando me perguntavam, às vésperas da viagem, o que eu ia fazer na China, eu dizia: levar própolis pro Mao. Não era mentira, meu único compromisso aqui, coisa a fazer, tarefa, chame do que quiser, era entregar as três caixas marrons com umas abelhas desenhadas nas mãos de Mao. Pois ontem liguei pra ele.

Mao veio até meu hotel, me comprou um cartão que serve para metrô, ônibus e táxi, me levou até a casa dele e falou durante horas sobre a cidade, sua vida, a revolução cultural, a China e o mundo, enquanto eu anotava, avidamente, no meu caderninho. Se voltasse para o Brasil imediatamente, já teria material para um livro. Ou mais.

 

A maior marcenaria da Ásia

 

O bisavô de Mao era marceneiro no fim do século XIX. Tinha uma pequena oficina. Um dia, um inglês que ouvira falar de seu talento e honestidade apareceu por lá e pediu uma poltrona. Não qualquer poltrona. Fez especificações detalhadas: queria madeiras finas, molas novas e da melhor qualidade, pregos e parafusos de tais e tais tipos, juntas feitas de sei lá o que -- só faltou pedir direção hidráulica e calotas de molibidênio...  Depois do prazo combinado o inglês voltou. Olhou a poltrona atentamente e,para a surpresa do marceneiro,  tirou uma adaga do bolso e  retalhou o assento de couro. Depois de fazer uma autópsia detalhada das entranhas do móvel, concluiu. “Você é honesto. Fez exatamente o que combinamos, quando poderia ter embolsado o dinheiro e colocado peças usadas dentro. Te faço uma proposta. Vou construir um grande prédio na beira do rio (hoje, o Bund). Quero que você faça toda a mobília.” O marceneiro disse que não tinha como, era só ele e um ajudante naquele cubículo. O inglês falou que não havia problema, a obra demoraria vários anos, ele adiantaria 30% do valor e o bisavô de Mao poderia abrir uma fábrica, contratar empregados, comprar ferramentas.

Em alguns anos, a Mao Quan Tai era a maior fábrica de móveis de toda a Ásia. Fabricava as mobílias mais elegantes para ingleses e franceses que faziam fortuna da noite pro dia vendendo ópio e comprando seda, algodão e chá. Seus filhos eram dois playboys, como convém à segunda geração de novos ricos. O avô de Mao estudou em Cambridge e adquiriu costumes europeus. Seu irmão era amigo da primeira dama da China, esposa de Chiang Kai-shek. Um terço das terras ao norte de Xangai era deles.

Na década de 30, os japoneses invadiram Xangai. Em 1938, queimaram a fábrica. A família de Mao teve a segunda maior perda civil da cidade durante a invasão.



Escrito por Antonio às 11h16
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O avô de Mao, dandy e fidalgo, teve que trabalhar. Foi para o sul do país, onde ajudou os norte-americanos a fazerem bases da força aérea para o Kuomintang e Chiang Kai-shek usarem na guerra contra os comunistas. Em 1949, Mao Tsé Tung venceu o Kuomintang, a família de Mao (o nosso), fugiu para Hong-Kong. Ele, ainda criança, ficou com alguns parentes.

A partir da década de 60, o regime de Mao Tsé Tung foi se fechando e começou e perseguir quem tivesse quaisquer relações com o Kuomintang ou fosse simplesmente descendente de empresários, donos de terras ou mesmo profissionais liberais. A revolução de operários e camponeses não queria ser poluída pelo “sangue sujo” dos “sequazes do capitalismo”. Mao era chamado de “filho de cachorro” e tratado a pontapés. (Leiam Cisnes Selvagens, de Yung Chang). Sua mulher, Lilia, que durante todo o colegial fora a melhor aluna da escola, foi proibida de entrar na faculdade. O irmão de Mao foi mandado para um campo de reeducação na Manchúria, para aprender com camponeses a ser um verdadeiro revolucionário. Em alguns dias fazia 40 graus abaixo de zero.

Com a morte de MaoTsé Tung e a entrada de Deng Xiaoping, no fim dos anos 70, a China começou a se abrir. Mao e Lilia foram para o Brasil, onde ficaram 28 anos. Voltaram há três. Moram num condomínio de classe média alta nos arredores da cidade, onde me receberam com chá, biscoitos, pantufas e uma hospitalidade que soma a dos brasileiros com a dos chineses. No fim da tarde fomos a um restaurante e eles me ofereceram um banquete. Uns seis pratos, de camarão ao transcendental (como diria o Daniel Galera, comendo chorizos em Buenos Aires) pato laqueado de Pequim.

Mao é otimista quanto à China. Diz que a vida está melhorando. Todo mundo come, todo mundo tem celular, pode comprar livro, CD, DVD, entrar na internet, reclamar do governo. “Olha as mangas! Os abacaxis!”, dizia ele, apontando as quitandas pela rua, quando íamos para sua casa. “Antigamente não tinha nada disso. As pessoas estão felizes”. Pergunto se não guarda rancor do passado, das perseguições e humilhações. Diz que não, que eles têm que olhar para a frente.  Se o um bilhão e trezentos milhões de pessoas fossem resolver as contas da revolução cultural, Israel e Palestina pareceria uma guerra de Playmobil. Ainda bem que, aparentemente, os outros um bilhão, duzentos e noventa e nove milhões, novecentos e noventa e nove mil e noventa e nove pessoas pensam como Mao.

Escrito por Antonio às 11h15
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Achados e perdidos

 

Malte 90

 

Embora as latas de cerveja e refrigerante sejam de alumínio, as argolas para abrir ainda são aquelas que você puxa e arranca um pedaço, como uma gota de metal, lembram? Mais uma metonimiazinha disto que já está se tornando um chavão para mim: a convivência do moderno e do antigo e blablabla...

 

Cocoricó

 

Bobeou, os chineses acocoram-se. Com as solas dos pés totalmente no chão. Você olha numa esquina e tem um cara acocorado, como se fosse botar um ovo. Adolescentes fumam assim no shopping, senhores descansam assim na praça.  Não sei como eles conseguem. Eu tentei aqui no hotel, com as cortinas fechadas, e caí de bunda todas as vezes.

 

Movimento underground

 

Xangai tem mais de dois mil prédios com mais de 40 andares. E mil em construção. Hoje tem 18 milhões de habitantes, mas em quinze anos a expectativa é de 40 milhões. E a cidade está toda sendo planejada para isso. Ontem vi uma obra de esgoto. Vocês não acreditam no tamanho do cano que eles estavam enterrando. Nunca vi nada assim em nenhum lugar. Fiquei ali, pasmo, olhando para aquele negócio, e fiz mentalmente uma simples regra de três: pela quantidade de “material” que eles estão esperando passar por ali, deduz-se a enormidade de bundas que ainda estão por vir. Os caras pensam em tudo.



Escrito por Antonio às 00h50
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Café da manhã

 

          A página do flat na internet alardeava, como um diferencial, café da manhã “chinese and western”. É verdade, mas digamos que a parte que nos cabe -- a nós, ocidentais --, nesse latifúndio gastronômico, é bem restrita. Num cantinho, perto da garrafa elétrica de esquentar água para o chá, tem uma cestinha com pão de forma, manteiga (da Nova Zelândia), geléia, umas fatias nanicas de melancia, Tang de dois sabores (duas cores seria mais correto) e iogurte. Já a parte “chinese” se espraia por um mesão: macarrão com carne e vegetais, linguiças, carne de porco, de frango, bacon, vegetais misturados, cebola, pepino, tofu, bolinhos das mais diversas espécies.

          Depois de quatro dias comendo a mesma torradinha com manteiga (da Nova Zelândia), resolvi fazer uma pequena incursão ao misterioso Oriente. Comi uma torrada com pepino, tomate, umas fatias de gengibre e – foi aí que eu errei -- tofu num molho extremamente salgado, que quase inviabilizou meu sincretismo matinal. Também comi um bolinho no vapor, recheado com uma espécie de tutu de feijão – doce. (To falando que os chineses são mineiros). Era bom.

          Até o fim da viagem, quem sabe, eu não chego no yakissoba?

 

Os prédios

 

          Assim como não há chinesa avulsa – elas sempre andam em duplas, bem pertinho ou de braços dados --, não há edifício no singular: eles vêm em conjuntos de quatro, seis, oito... Há as enormes torres espelhadas, gigantes, de arquitetura futurista, impressionantes. Esses sim, são indivíduos autônomos na paisagem. Mas os prédios residenciais são condomínios gigantes, de quarenta andares. São edifícios feios (não mais feios que os de São Paulo), desses em que se vê mais engenharia do que arquitetura. Lembram de De volta para o futuro II, quando MacFly vai para o futuro em que Biff é o vencedor? Parece um pouco aquilo lá.

          Já os prédios Jetsons de vidro são lindos. E o que impressiona é que não estão restritos a uma área da cidade, um centro empresarial ou algo do gênero, mas a várias. Em Pudong estão os mais impressionantes, mas por toda a cidade você topa com um ou vários deles. O mais impressionante (o mais impressionante, o mais sensacional, o mais fantástico, até eu tô me cansando desses adjetivos) de tudo é pensar que essa cidade, como a vemos hoje, brotou do chão da década de 1990 para cá. E no Brasil a gente fica quase uma década olhando para uns tapumes envergados pela chuva, manchados de xixi de cachorro e com lambe lambes “Compro ouro, prata, platina”, esperando a construção de uma padaria...



Escrito por Antonio às 22h36
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Because love ends, Shirley!

 

São inúmeras as razões que a vida nos dá para nos fecharmos, mas poucos os motivos para baixar a guarda. Estar sendo pago para “aprender uma cidade” certamente faz parte do segundo grupo.

Esse comecinho mezzo filosófico é só para dizer que, tivesse eu tomado a Nanjin road como paradigma, jamais responderia a um hello novamente aqui na China, receoso de indesejáveis muambas e  obscuras “feet massages”. Mas saindo ali de Copacabana, há outros hellos que podem, e devem, ser levados em conta pelo viajante de espírito aberto.

Eu estava perdido anteontem, com o mapa na mão e uma vaga idéia de onde estava na cabeça, quando duas meninas se ofereceram para me ajudar. Bem, elas não eram de Xangai e logo percebi que ajudar elas não iam, mas queriam dar um dedinho de prosa com o estrangeiro. (Ainda não me decidi se os chineses são mineiros ou baianos, mas ô povim bão de hospitalidade, meu rei). Helen e Shirley (seus nomes americanos, claro) disseram que estudavam inglês na faculdade e nunca tinham a chance de praticar. Estudam em Suzhou, aqui perto (onde era plantado boa parte do chá que a China exportava no início do século XX), mas nasceram em pequenas cidades do interior. (Imaginei umas meninas de Lins e Cafelândia que estudassem na Unicamp, estivessem passeando por São Paulo e cruzassem um australiano). Usavam umas roupas moderninhas e Shirley levava uma sombrinha roxa, por causa do calor. Quando falei que era do Brasil, elas perguntaram “e onde é que fica?”. No fim das contas elas encontraram o Museu de Xangai para mim e nos despedimos trocando e-mails e telefones. (Tive que soletrar A-n-t-o-n-i-o). Hoje saí com elas.

Nos encontramos no mesmo lugar onde dissemos tchau, mas hoje embaixo de uma chuva insistente, grossa e gelada, com um vento traiçoeiro que de uma hora para outra fazia os pingos mudarem de direção e os guarda-chuvas virarem do avesso, mostrando despudoradamente suas anáguas de alumínio. (continua embaixo)



Escrito por Antonio às 09h28
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Eu não sabia se estendia a mão, se as beijava ou só dava um oi, assim, de longe. Preferi a última opção, apenas um Ni Hau sem contato físico e possibilidade de constrangimentos. Fomos para um restaurante ali perto. As duas escolheram tudo, depois de quase vinte minutos de calorosos debates em chinês  – de onde saíam vez ou outra para breves consultas como “do you like mushrooms?”, “do you prefer spicy food?”, “what about tofu?” e logo depois voltarem à interminável discussão.

Elas pediram e eu disse que queria uma Coca-light. Fizeram uma cara de assombro e trocaram umas cinco ou seis frases com a garçonete, que também parecia surpresa com meu estranho desejo. Shirley me perguntou se queria “ice” nela. Disse que sim, achando que a questão estava resolvida.

O lugar era meio estranhão. Um pouco mais pé sujo do que meu passado Oswald-Equipe-Bahia acharia bacaninha, mas a comida, mais uma vez, era fantástica. Primeiro veio uma espécie de sopa com macarrão e legumes, apimentada. Depois um tofu com camarão e molho de tomate (eu me rendo, eu me rendo, tofu é bom...), berinjela com um molho grosso à base de shoyu e uma carne moída sensacional em cima, um macarrão quase transparente e leve, com frango e cebolinha e, como se não bastasse isso tudo, uns bolinhos no vapor com carne e legumes (tipo guiozas). Tudo isso custou 51 yuans, que dá pouco mais de quatro reais para cada um.

Minha coca chegou, não era light e tinha uma bola de sorvete de creme dentro. Céus, não tomava vaca-preta desde o pré-primário e fui reencontrá-la na China? (Se fosse místico, acharia que era um aviso de uma pessoa querida que está um pouco brava comigo e para quem expliquei, semanas atrás, a existência dessa estranha beberagem).

A conversa começou truncada, com umas perguntas que pareciam ter sido tiradas de um livro de inglês, tipo “qual a capital do seu país?”,  “como é o tempo lá?”, mas bastaram uns minutos para elas começarem com “quantas namoradas você já teve?” e se contorcerem em risadinhas. Falei um pouco sobre a minha vida e elas ficaram pasmas. “Você morou com uma mulher sem se casar?! Como vocês são abertos! E se tivessem um filho?!”. Me explicaram que na China não era assim. E não pareciam contrariadas. As duas queriam arrumar um namorado para casar e ficar junto até o fim da vida. Perguntaram se eu tinha irmãos e aí é que acharam que eu era mesmo um devasso, de uma linhagem de devassos: “uma irmã de pai e mãe, um irmão de pai e uma irmã nem de pai nem de mãe, mas que o marido da minha mãe teve no outro casamento e veio morar com a gente”.

Lá fora a chuva continuava e, como discutíamos o que fazer, eu disse que não precisávamos ficar andando pela rua, mas podíamos ir para um lugar fechado. “Um lugar fechado?!”, repetiu Helen, seus dois olhinhos agora maiores do que os de um personagens de mangá. Fiquei tão constrangido que comecei imediatamente a enumerar lugares fechados acima de quaisquer suspeitas: exposição, museu, mercado, shopping, livraria... (Parei antes de falar farmácia ou academia de ginástica).

Saímos andando na chuva e no vento frio em direção a uma casa de chá que, segundo elas, fazia o ritual como convém. A gente levando aquelas lambadas geladas de chuva na nuca, pisando em poças, Shirley vira e grita para mim: “você acredita em amor verdadeiro?!”. Pô, olha a mina... “Sim, acredito, eu amei profundamente as mulheres que namorei”. “Mas se é verdadeiro, é pra sempre. Por que seus namoros terminaram?!” Minha vontade era dizer, olha, Shirley, eu também queria saber, já falei muito disso na análise, talvez eu seja um idiota, talvez toda a minha geração seja idiota e mimada e incapaz de abrir mão do que é preciso para uma vida a dois, talvez a vida é que seja idiota, mas achei que a situação não era exatamente para grandes especulações, estávamos atravessando a rua, chovia, um ônibus desgovernado vinha em nossa direção, um guarda apitava -- caralho, tô em Xangai falando sobre amor verdadeiro com duas chinesas desconhecidas que se chamam Helen e Shriley! --, de modo que, chegando à outra calçada, agarrei firme a mão de Paulo Mendes Campos e falei: beacuse love ends, Shirley. “What?!”, ela perguntou, em meio ao barulho vento, dos ônibus, do guarda. Tive que falar quase gritando: Because love ends, Shirley! As duas pararam, olharam sérias para mim. Helen tomou a frente: “not if it’s true”.   

Tá, talvez vocês tenham razão. Eu não sei. Não sei mesmo. Eu sei que amei de verdade, depois acabou. A vida acaba, o amor acaba, só essa chuva é que parece não ter fim. E lá fomos nós, tomar chá, como se nada tivesse acontecido.



Escrito por Antonio às 09h28
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Mais de Shirley e Helen

 

Água?!

 

Ainda no restaurante, abandonando a vaca preta (o sorvete tinha derretido e estava mais para burro quando foge), disse a elas que queria uma água. “Água?”, perguntou Helen. Ah, péra lá! Até a coca-cola eu entendo o espanto, o país era comunista e tal, mas água?! Qual o problema? “Água gelada?!”, repetiu Helen, como se quisesse ter certeza de que havia ouvido certo. É, uma garrafa d’água. As duas fizeram um não convicto com a cabeça. “Água gelada faz mal para o estômago, você não sabia?!”. Mas, Shirley, o mundo todo bebe água gelada!. Eu já tomei até aqui na China. Pode deixar, não vai ser a água que me causará algum problema nessa vida. Pede, por favor? Elas se olharam e, a contragosto, pediram alguma coisa ao garçom. Em um minuto veio uma xícara de água fervendo. “Espera esfriar um pouco e depois bebe. Água gelada, nunca”, disse Helen, passando por cima do fato de ter ignorado meu pedido e com uma cara de quem acaba de tirar um amigo do fundo do poço das drogas.
 

Barba

 

À caminho da casa de chá: “Por que você deixa isso aí?”, perguntou Helen, apontando meu rosto. Isso o que, a barba? “Não sei como chama, isso que você deixa”. Porque eu gosto. Você acha feio? Elas riem. “Não, estrangeiro pode. Mas em chinês é feio.”

 

Macaco

 

Os chás são incríveis e uma mulher explica cada um, seus efeitos e a tradição correspondente. Helen me traduz. Tomamos numas xícaras bem pequenas, de uns 50 ml. Em meia hora me preveni contra o câncer, ganhei força, paz, combati dor de dente, ressaca, dor de estômago, ansiedade e até miopia. (A mulher me fez tirar os óculos e colocar o olho dentro da xícara vazia, com o vapor do chá).

Tomamos sete tipos, cada um com sua xícara, seus movimentos, sua história. Deliciosos, grande programa. Com calor, tiro meu casaco. As duas olham meu braço e riem dos meus pêlos. “Você parece um macaco!”, diz Shirley. “De que montanha você vem?”, continua Helen, e riem, riem dos meus pêlos. Aproveitando que as barreiras do comedimento e discrição foram definitivamente derrubadas – pelo menos no que tange à queratina --, Helen pergunta: “seu cabelo é mesmo dessa cor?”. Claro, Helen, porque você acha que eu pintaria? “É muito escuro, quase como o nosso. Estrangeiro é sempre loiro”.  Juro, eu não pensava nem de longe que essa viagem ia ser tão doida.



Escrito por Antonio às 09h27
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Far East

 

A verdade é que cheguei a Xangai atrasado. Um século. Há cem anos, um missionário escreveu: “se Deus permitir que Xangai perdure, Ele deve desculpas a Sodoma e Gomorra”.

Isso aqui era um verdadeiro faroeste. Ou, com o perdão pelo trocadilho, o far east. Como diz Stella Dong, no livro que comprei aqui esses dias (Shanghai, rise and fall of a decadent city) “Metade ocidental, metade oriental, metade terra, metade água, nem colônia nem totalmente pertencente a China, habitada por gente do mundo todo mas controlada por ninguém. (...) O estranho fruto de uma união forçada entre Ocidente e Oriente, essa princesa híbrida nasce de uma bizarra premissa: o direito de uma nação de meter goela abaixo de outra uma poderosa droga”. Ópio. 

Os malvados da história são os Ingleses, chamados então pelos chineses de “os bárbaros ruivos”. Ávidos por negociar com a China, os ingleses mandaram, em 1793, barcos cheios de seus melhores produtos. O imperador Chien Lung deu uma olhada e mandou sua lacônica resposta a George III: “Nós temos todas as coisas. Não vejo nenhum valor nas suas mercadorias, incomparáveis às nossas”. Os ingleses queriam chá e seda. Mas fazer o que, se não tinham nada a oferecer? Não tinham, até que a British East India Company, que monopolizava o comércio com o Oriente, teve a brilhante idéia: ópio.

Trinta anos depois, a droga que estava há tempos banida da china era consumida por doze milhões de pessoas, ou dez por cento da população. Quando o imperador tentou resistir, os comerciantes ingleses convenceram a coroa a dar uma mão. Uma frota fortemente armada atacou Xangai. No dia em que os bárbaros ruivos entraram na cidade, 19 de junho de 1842, os moradores disseram que, “nem um único cachorro em toda a cidade ousou latir”.

A partir daí os ingleses fizeram uma espécie de bolha dentro da China. E logo vieram os franceses, os americanos e muitos outros. Tinham suas próprias leis, suas próprias mansões, adegas, banquetes, concubinas chinesas e, principalmente, aquela ética mui particular que o homem branco criava ao se estabelecer e ganhar dinheiro longe da mamãe e da esposa. Os relatos são pantagruélicos. Os caras faziam fortunas da noite pro dia, importavam cavalos árabes para corridas e cozinheiros franceses para seus clubes. Gastavam, gastavam, gastavam. Bebiam, comiam, se refestelavam. E o dinheiro não parava de jorrar. Quando criticado por um inglês mais consciencioso, um desses aventureiros respondeu: “É meu trabalho fazer fortuna no menor tempo possível. Em dois ou três anos, no máximo, eu espero estar rico e cair fora. E não to nem aí se Xangai inteira desaparecer assim que eu virar as costas, pegar fogo ou for inundada”.  

Vai ser irônico se, daqui vinte anos, a China for o país mais poderoso do mundo e Xangai, hoje seu principal centro econômico, a metrópole mais importante do planeta. Por enquanto, só vejo os olhos arregalados dos bárbaros ruivos nos museus, nas praças e diante do mar de enormes prédios modernos. Não estouram mais champanhe pelas ruas, só bebem mansamente suas garrafinhas de água Evian e tiram fotos com suas câmeras chinesas. Aquele missionário -- que Deus o tenha -- deve estar contente.



Escrito por Antonio às 01h42
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