Os dragões do meu quintal


Liberdade de ir e vir

 

A economia é planejada pelo Estado, a política é ultra-centralizada pelo Partido Comunista e a  imprensa censurada. Mas o trânsito de Xangai, meu amigos, goza da maior liberdade da Terra. É a guerra de todos contra todos, a esbórnia total, alguma coisa entre Hobbes e o Aterro do Flamengo: o mais casca grossa dos taxistas cariocas, por aqui, daria aula de direção defensiva.

Os ônibus fecham os carros, que fecham as motos, que fecham as bicicletas, que não hesitam em passar por cima dos pedestres. E quantas bicicletas. Rios sobre duas rodas passam o tempo todo. Não só bicicletas, mas inúmeras variações motorizadas, como mobiletes, lambretas, triciclos, riquixás e outras estruturas para as quais nós, ignóbeis ocidentais, não temos palavras.

 

Mais táxi

 

Embora o risco de não chegar vivo ao destino deva ser considerado, vale muito a pena sair de táxi por aí. Você cruza a cidade por dez reais. E tem mais: se o taxista cuspir pela janela você tem o direito inalienável de não pagar a corrida. Tá escrito numa espécie de redoma de plástico que separa o banco do motorista do resto do carro. (Para que a redoma? Para nos proteger do cuspe?). O governo está fazendo uma campanha para erradicar a escarrada do país. Querem chegar nas Olimpíadas de 2008 com pelo menos 20% a menos de catarro pelas ruas. (É uma meta realista, disse o encarregado do governo). Parece que, em Pequim, já reduziram em 4,8%.

Eu pagava 100 dólares para saber como foi feita essa pesquisa.



Escrito por Antonio às 01h25
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Assembléias gastronômicas

 

Tirando algumas reuniões do centro acadêmico da PUC, eu nunca tinha estado num lugar onde a comunicação é absolutamente nula. Eu não entendo nada que eles falam e vice-versa. A mímica (essa arte por mim, até três dias atrás, relegada a mera diversão de praia em dia de chuva e para a qual, agora, acendo velas toda manhã), tem seus limites. Consigo bater asas ou imitar um peixe para saber se aquele negócio é frango ou peixe (juro), mas não há gesto na Terra que lembre coca. E, sabe Deus porque, a palavra coca aqui não significa lhufas para eles.

Os restaurantes costumam ter cardápios bilíngues e, muitas vezes, fotos dos pratos. Mas e para saber o que é “frango cantonês”? E para descobrir se vem com algum acompanhamento? E se dá para uma pessoa ou nove? No way, mistel Plata. O jeito é pedil e tolcel.

Acontece que, sempre que acabo de pedir, vejo que o garçom ou a garçonete fazem uma cara estranha. Eu fico na minha, achando que é paranóia. Mas aí o garçom se junta a outro, começam a falar e olhar para mim. Geralmente, nessa hora, o gerente entra na roda. O pessoal de uma mesa também dá uns pitacos na discussão. Eu fico nervoso, achando que pedi algo como purê de batata para seis e uma travessa de chantily diet. (Vai saber o que era aquele prato chamado “Aurora da primavera...”). Depois de algum tempo eles elegem o Celso Amorim do restaurante, o Barão de Rio Branco em horário de almoço, enfim, um emissário que vem até mim tentar explicar os equívocos. Anteontem, após muito esforço, a simpática dona do restaurante conseguiu me fazer entender que a tal lula de Zhonjhou ou sei lá onde era fria. E me sugeriu outra. (Muito boa, por sinal).

Ontem de tarde consegui tirar todos os atendentes do supermercado de suas funções só porque pedi um espetinho de frango. Até o cara que etiquetava os produtos gesticulava, brandindo a máquina etiquetadora, tentando me fazer entender algo que eu, absolutamente, não entendia. Uma mulher com pinta de gerente apontava todos os espetinhos da vitrine e dizia: one one one one one! E eu respondia: sim, moça, one! Quero one!. Só depois de uns dez minutos entendi: eles não vendiam only one, só a porção com seis. Saí de lá transtornado, sem espetinho e com one suco de tomate.

O ser humano mais sensível, diante dessas pequenas derrotas cotidianas, pode ir se fechando para a vida e acabar no McDonald’s. Não é o meu caso, camaradas. Vim aqui com a missão de conhecer a cidade e não arredarei o pé de meus objetivos. Ainda como aquele espetinho, nem que tenha que comprar one one one one one e mais one.

 

Pequena fábula

 

Os andaimes de várias obras são de bambu. Impressionante, eles construindo esses prédios modernésimos trepados em estruturas de bambu! Vejam só que imagem mais óbvia para o crescimento chinês: eles crescem 12% ao ano, entre outras coisas, porque a mão de obra é quase de graça. A economia chinesa é o prédio sendo construído. A mão de obra é o frágil andaime de bambu.  

(A realidade, às vezes, trabalha com imagens tão pobres. Pobres de nós, escritores, que temos de achar uma maneira original de dizer as coisas).



Escrito por Antonio às 01h25
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Museu de Xangai

 

Quando Sócrates parou de chupar o dedo, aquela jarra de bronze na minha frente já tinha 1500 anos. Quando olhamos para a história da China, o nascimento de Cristo não fica mais distante do que o lançamento do Chevete.

Esculturas de 1800 AC impressionam, mas o que mais me embasbacou foram pinturas e cerâmicas incríveis do século XIII, XIV. Quando penso em 1200 na Europa me vem à cabeça um monge sujo sentado numa banqueta tosca com uma roupa de saco de batatas. E o os chineses fazendo aquelas coisas elaboradíssimas. Outra coisa impressionante: você vê um pratinho de cerâmica da Dinastia Ming de 1426, outro de 1687, e vai indo, até um da dinastia Qing, de 1911. E são iguais. Não há uma evolução técnica, como na arte ocidental.

Outro dia, quando os chineses anunciaram uma lei que pode ser considerada o início da propriedade privada, o presidente da China, Hu Jintao, foi questionado sobre a abertura política. Ele disse que por ora as coisas permaneceriam como estão, sem mudanças. O atual estágio do comunismo, disse ele, deveria durar pelo menos mais uns cinquenta, cem anos. Lembro que o comentarista político brasileiro riu, na tv. Eu também.  Porra, os caras passaram 600 anos fazendo o mesmo pratinho, exatamente do mesmo jeito, o que são cinquenta anos na política?



Escrito por Antonio às 01h24
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                   A rambla dos Jetsons

 

Desci a pé a Nanjing Road East, que vai dar no rio Huangpu, no Bund (antiga área francesa). Do outro lado do rio a gente vê o Pudong, o bairro das torres futuristas, cartão postal da cidade.

A rua Nanjing é uma espécie de rambla capitalista que desce por vários quarteirões, rasgando um bairro de prédios antigos. Uma artéria que mistura Berrini e Liberdade (depois de três ácidos e dez carreiras) construída no meio de um mar de Lapa, só que mais densa, mais misteriosa e mais interessante.

De vez em quando eu saía da Nanjing para uma dessas transversais. Pelas estreitas calçadas, em frente a uns quase cortiços, homens jogam baralho, em meio à fumaça das panelas de óleo que fritam bolinhos e das churrasqueiras que fazem espetinhos de lula, polvo, frango, pato e outras formas de vida não identificadas. Do nada saem uns corredores que dão para umas espécies de vilas cheias de casas, roupas penduradas em varais e becos suspeitos, onde há oitenta anos chineses com olheiras profundas e marinheiros bêbados deviam cair pelos cantos fumando ópio.

Por todo lado, lojas das mais diversas quinquilharias: só de alicates, só de correntes, só de trinco de porta, de isopor... Lembra um pouco aquela parte de Pinheiros abaixo do Largo da Batata. Tudo sujo, misterioso, com cara de crime. Aí você volta pra Nanjing e está novamente no futuro.

Andei mais de uma hora. Por todo o percurso você passa por torres enormes e modernas, umas que se contorcem, refletindo a cidade disforme, outras com bolas no meio, outras com espetos, Jetsons mesmo.

A impressão que dá é que, depois da morte do Mao e da abertura econômica, em 1978, com Deng Xiaoping, a China olhou para o mundo capitalista e disse: truco, marreco! Xangai é a manilha, que o país bate na testa do Ocidente enquanto ri, crescendo 12% ao ano.



Escrito por Antonio às 21h37
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                             O Haiti não é aqui

 

Xangai é a cidade que mais cresce do país que mais cresce no mundo. 40% do cimento mundial vem para a China. Os guindastes têm holofotes para que as obras não parem de noite. (Dizem que é a cidade com mais guindastes da Terra). Se a China se tornar a grande potência do século XXI, como dizem por aí, Xangai será o novo centro mundial. É bom ficar amigo do pessoal. Vai que eu não sei e o Caxambu é Donald Rumsfeld do novo milênio?

 

                            

Mais Caxambu

 

Quando perguntei seu nome, Caxambu me disse: English or chinese? É comum o cara se chamar Xiu Lun Chang mas, para os gringos, apresentar-se como Steve, John ou Bob. Facilita as coisas. Caxambu, por exemplo, chama-se Brin.

Meu amigo Rodrigo passou quarenta dias aqui na China. Nenhum chinês consegue falar o érre, de modo que ele virou Lodligo. Até que um patrício (da pátria de cá) disse pra ele: cria um nome em chinês. Lodligo pensou um pouco e escolheu algo cuja sonoridade lhe pareceu adequada. Pelo que ouvi dizer, Pin Gu Lin fez o maior sucesso na República Popular da China.



Escrito por Antonio às 21h36
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Hello, where are you from?

 

Descendo a Nanjing você é constantemente abordado por gente querendo vender mercadorias contrabandeadas. Uma menina disse hello e começou a andar comigo. Tinha uma cara de quem ia me oferecer alguma coisa ilegal. Falava “where are you from? We are walking together! We are walking together!” Eu respondia que sim, sem dúvida nenhuma, ninguém poderia negar, estávamos walking together. Fiquei esperando que tipo de contravenção ela ia me propor. Depois de mais de um quarteirão com seu papinho de walking together e we are friends ela me olhou com cara de safada. Pensei em ópio, seda, concubinas, lança mísseis terra-ar. Ela me disse: “buy t-shirt? Buy t-shirt?” Esperava mais do misterioso Oriente...

 

No quarteirão de baixo um cara cola do meu lado, mesma cara de malandro:

-- T-shirt?

-- No, thank you.

-- Watch?

-- No, thank you.

-- Louis Vuitton? -- disse ele, já abrindo um sorriso.

          -- No, thank you.

          -- A beer? It`s hot! A beer?

          -- No, thank you.

          -- Massage? – agora o sorriso ficou mais malicioso, de quem está quase entregando o ouro.

          -- No, thank you.

Senti que ele começava a ficar impaciente.

          -- Feet massage?

          -- No, thank you.

          -- Ok, where do you want a massage? – falou, quase piscando, caso o gringo aqui não entendesse a mensagem. Ou a massagem? (O meio é a massagem). (Desculpa, escapou).

          -- No, thank you.

O cara perdeu a paciência:

          -- Last offer, one woman, one hour, want?

          -- No, thank you.

Ele saiu andando rapidinho. Ainda ouvi sua voz, logo atrás, abordando uma nova vítima: t-shirt?

 



Escrito por Antonio às 21h36
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                                      Aqui e aí

 

          Às vezes parece tudo igual, às vezes não tem nada a ver. No rádio do supermercado toca música pop chinesa e parece que basta mudar a língua e ficaria igualzinho Sandy e Junior. Quando entra a voz empolgada do locutor e você não entende o que ele fala, dá a impressão que, pelo tom, ele pode soltar a qualquer momento um empolgado “Transamérica loucura total!” ou qualquer outra dessas bobagens. Até que você dá de cara com o aquário de sapos vivos ou o pote de cabeças de pato fritas e se lembra que não está no Mambo de Pinheiros, mas num mercado de Xangai.  (Vai precisar de muito amaciante Comfort para catequizar esse pessoal com seis mil anos de história).



Escrito por Antonio às 21h35
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                                       Cool  

 

          Não se vê pelas ruas chineses tão descolados como os japoneses. Apesar das torres, do crescimento de dois dígitos e tudo mais, parece que eles ainda não acharam o ponto, esteticamente, do capitalismo. Talvez sejam como adolescentes que cresceram rápido demais e ainda andam um pouco desajeitados. O vj da tv, os adolescentes de mãos dadas pela calçada e a menina de polainas rosa e óculos escuros que passa de bicicleta ainda lembram um pouco primos do interior que não dominam inteiramente os códigos da cidade grande. Mas estou aqui há menos de 24 horas, são impressões precipitadas. (Bom, mesmo depois de um mês, ainda serão).

 

                            

         

 

 

         

         



Escrito por Antonio às 21h23
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                                                 Xangai, baby

 

 

Foram 27 horas de viagem. Eu não demorava tanto tempo assim para chegar num lugar desde aquelas intermináveis idas de ônibus para a Bahia, na adolescência. O outro lado do mundo é realmente longe. Só me dei conta mesmo do óbvio depois de cruzar o Atlântico, descer em Paris e perceber que ainda estava na metade do caminho. Então é isso – pensei --, o aeroporto Charles de Gaule é como se fosse assim o Resendão da Dutra, o Graal Itatiaia ou a parada de Itabuna.  Só que em vez de esfirra você come um croissant e em vez de um “tudo de bom, meu rei”, você recebe um resmungo de uma provável eleitora do Sarkozy. Mas vamos ao que interessa.

Cheguei no hotel em Xangai 29 horas depois de embarcar em São Paulo e recebi a notícia que o quarto só estaria pronto em uma hora. Saí andando pela cidade. Não dá para dar uma panorâmica porque é muita informação e só andei por uma rua, a do meu hotel. Mas foi o suficiente para perceber que o negócio é mais complicado do que eu imaginava....

Entrei num supermercado e fiquei uns dez minutos babando numa espécie de estande, desses tipo Promocenter, que só vendia pato. Pato assado, pato frito, pato a passarinho, língua de pato, pé de pato e outras coisas de pato que não sei quais são. Depois subi para outros andares e vi o que já tinha lido no livro China, o renascimento do Império, de Cláudia Trevisan: aquários e mais aquários com peixes vivos, moluscos se mexendo, sapos e tartarugas de todos os tipos, cobras, mariscos de todas as raças, credos e cores. Umas conchas cuspiam água de vez em quando, num jato fino, mas potente. Tem também camarões secos, como no nordeste. Se arrumar farinha de mandioca já dá para fazer um vatapá. As coisas são mais apetitosas do que nojentas. Na saída, um garoto de uns 20 anos parou do meu lado na escada rolante e disse: hello. Fiquei pensando: que que esse cara quer comigo? Será que ele tá me chavecando? Mas deixei de ser besta e puxei papo. Seu nome, juro, é Caxambu. Fiz ele repetir umas quatro vezes e é isso mesmo. Não sei se se escreve Kai Chang Bou ou Ca Xan Bug, mas fala Ca-xan-bu. Comecei a explicar que in Brasil we have a town anda a mineral water..., mas desisti. Ele perguntou de onde eu era e Brasil não remeteu a nada remotamente conhecido. Mas foi só eu falar Lonaldô que Caxambu abriu o sorrisão e ficou meu amigo. Dei meu telefone para ele e ele me indicou um restaurante. Na base da mímica, consegui comer pato com uns legumes. O mais difícil foi pedir a Coca. Quando o garçom entendeu, disse algo que me pareceu google ou baba, qualquer coisa, menos coca. Não adianta. Nem no hotel consigo entender e me fazer entender. O negócio é ficar amigo do Caxambu e sair por aí com ele de intérprete.

Acabei de tomar banho, tomei uma google ou baba light e agora vou sair andando de novo. É tudo tão diferente que to me sentindo em casa.  Depois escrevo com mais calma.

 

Ps. Todos aqueles que me encomendaram as mulheres do Wong Kar Wai (é assim?): ainda não achei nenhuma, mas cruzei com algumas que parecem ser pelo menos primas. Qualquer novidade eu aviso.

 

Ps 2. Vi o filme novo do Rocky no avião. É, Rocky Balboa, ele mesmo. Tá, tá, eu admito que a viagem para longe, as horas mal dormidas, o efeito desses psicotrópicos que fazem rabino roubar gravata e jumbofóbico dormir que nem criancinha podem ter influenciado, mas digo sem medo de errar: filmão. Até chorei no final.

Engraçado, enquanto o mundo foi ficando horroroso nas últimas décadas, os machões americanos foram ficando fofos? Acho que Clint Eastwood e Silvester Stalone andaram fazendo análise. Ou yoga? Agora to no aguardo de um filme de Charles Bronson sobre o afeto. 



Escrito por Antonio às 04h00
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Caros internautas perdidos que, por motivos os mais diversos, vieram dar aqui nesses costados: lá pelo fim da semana começarei a escrever um Blog de Xangai, onde fico até meados de maio. Darei o link aqui, assim que o tiver. Gracias.

Escrito por Antonio às 12h08
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