Caos e celulose
(Publicado no Guia do Estadão)
Estou feliz e satisfeito. Se não tivesse que escrever esta crônica, até abriria uma cerveja: acabei de eliminar o último montinho da casa, o maior, que me acompanhava há mais de um ano. Não sei se você, disciplinado leitor, também sofre desse mal -- o montinho -- mas a minha vida é uma eterna e inútil luta contra eles.
Não faço idéia de como nascem. Um livro caído no canto? Uma conta de luz deixada por acaso ao lado do sofá? Algumas folhas impressas esquecidas perto do som? Sei que estou andando pela casa numa tarde qualquer e meus olhos tropeçam na pequena Quéops doméstica, feita de manuscritos inacabados e livros jamais começados, cartas abertas e fechadas, caixas de CDs sem discos e discos sem caixas, contas, revistas, folhetos imobiliários, post its ancestrais e outras milongas mais, a desafiar a simetria que eu, com inquebrantável otimismo, desejava para minha sala, para minha vida.
Depois do susto – mas como? Ontem mesmo não estava aí! -- vem um suspiro resignado – pois é, agora está, fazer o que? – e vou tratar de outros assuntos. Por que não vou lá e simplesmente arrumo a bagunça? Oh, proativo leitor, logo vê-se que não entende nada de montinhos. Desfazê-los é perigoso como desarmar uma bomba! Ou você vai até o fim na empreitada, ou acabará dividindo-os em vários montinhozinhos temáticos – aqui as cartas, aqui os livros, aqui revistas... – e, em questão de semanas, terá criado um irreversível arquipélago de bagunça. Mais do que isso: acocorar-se diante das camadas sedimentares do passado é repensar a própria vida. Jogo fora essas revistas ou compro uma estante? Essas contas... Não seria o caso de botar no débito automático? Olha só, aquele conto do Cortázar. Se eu fizesse um mestrado, quem sabe, poderia... “Ligar urgente para Clélia – 87-98786754!!!”. Quem é Clélia? Oito sete é de onde? Será que eu liguei?
São tantas as indagações que surgem que tenho medo de, no meio da arrumação, decidir que minha verdadeira vocação é a odontologia, resolver passar seis meses na Índia ou fazer uma tribal na panturrilha.
Esta tarde, no entanto, apesar de todas as dificuldades, atirei-me com ímpeto à tarefa e desbaratei a última das barricadas de caos e celulose que restava em minha casa. Estou contente. Sinto que a vida é simples e boa. Mens sana in domus sano. Sento-me no sofá, observo a luz do sol atravessar a sala e sinto o sangue correr em minhas veias. Montinhos, nunca mais!, digo. Jogo a crônica de lado e vou abrir uma cerveja.
Escrito por Antonio às 15h02
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
Camarão na moranga
(Publicado no Guia do Estadão)
Ao contrário de mim, que cresci encharcado de cultura de massa, batatas fritas sabor churrasco e feijoada de microondas, minha amiga Clarissa é filha de eruditos, foi educada entre decassílabos, sonatas e camembert. Acreditem, isso faz uma baita diferença na hora de comprar uma abóbora.
“Ali tem um supermercado, ó”, eu disse. “Por que a gente não vai na quitanda?” ela me respondeu. Já estava instalada a cizânia. (Os desentendimentos germinam nas mais insuspeitadas brechas).
“Eu acho que as abóboras do supermercado devem ser melhores”, falei. “Imagina! Na quitanda deve ser o próprio japonês que planta, num sítio, sem agrotóxicos...”, ela argumentou, fingindo que a discussão era Olivier Anquier quando na verdade – os dois sabiam bem --, estava muito mais para Michael Moore.
Não sei se você compreende, mas um supermercado e uma quitanda encontram-se em pólos opostos do espectro político. Era isso que o olhar da Cla, com fúria guerrilheira, me dizia: o supermercado era de direita, códigos de barra, imperialismo ianque; a quitanda era de esquerda, papel pardo, Fórum Social Mundial.
“Olha, Cla, eu entendo, eu também acho assim que, esteticamente, sabe, a quitanda, o japonês, o sitiozinho dele... Sou a favor, mas veja só, o supermercado deve ter uma pilha enorme de abóboras e a gente vai escolher uma linda, imensa!”.
Ela resolveu botar tudo em pratos limpos – talvez já desconfiando que seriam os únicos pratos possíveis aquela tarde: “cara, você realmente acredita nas corporações, né?”. Fez-se um longo silêncio. Não havia jeito. Mesmo sabendo o risco que corria se a informação chegasse a certas rodas, soltei: “Sim. Bom, eu sou a favor do japonês, da horta dele, da quitanda, mas acho que os tomates, as cebolas e abóboras do mega-hiper-mercado são melhores. Se eu tiver que votar num mundo quitanda ou num mundo supermercado, voto quitanda e faço campanha. Se tiver que fazer um camarão na moranga, vou no mercado”.
Clarissa ficou indignada. Não entendia como é que eu, que tinha estudado no, que tinha lido tal, agora olha só, imagina com quarenta, por isso que o mundo, nossos próprios amigos, imagina o Bush então, o mensalão, acabou, acabou, acabou.
Saímos andando, cada um pra um lado, frustrados, magoados e famintos. Sei lá, talvez a Clarissa tenha razão, talvez a gente devesse fazer alguma coisa, talvez um outro mundo seja possível. Nosso camarão na moranga, definitivamente, é que não.
Escrito por Antonio às 15h01
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|