Os dragões do meu quintal


Jovens, tem havido uma certa reclamação pelo desleixo com que trato esse blog. Mas, entendam, é só um lugar para colocar minhas crônicas. Assim, nenhum marmanjo que queira me ler precisa comprar a Capricho, nem garimpar o Guia do Estadão atrás das minhas crônicas. O Scooby, um cara muito distinto, disse que eu não deveria andar por aí com um Blog desses, que era muito feio e tal. Espero que entendam....



Escrito por Antonio às 01h50
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                                                                             Janela indiscreta     

 

Incrível, nem terminamos novembro e o vizinho já encheu a varanda de luzinhas coreanas. Agora, da janela do meu escritório, vejo seu canteiro piscando -- verde, amarelo, vermelho --, anunciando que o natal está aí, é mais um ano que passou, menos um que passará. 

Chama-lo de vizinho talvez seja exagero. Não moramos no mesmo prédio, tampouco na mesma rua, apenas dividimos uma faixa de ar, a uns trinta metros do chão, ele em seu prédio, eu no meu. Nessa estranha cumplicidade aérea, com as janelas por moldura, vou criando sua imagem, através de pequenos sinais.

Durante a copa, por exemplo, na varanda onde agora as pobres mudas seguram o desproporcional ornamento luminoso – me fazem pensar em bebês com colares havaianos --, balançava uma bandeira do Brasil. Meu vizinho respeita as instituições. E vive o presente, como dizem por aí. De uma forma bem expansiva, aliás: até o fim da copa, assoprou um cornetão com tamanha fúria que cheguei a pensar que fossem as trombetas anunciando o apocalipse. (Talvez fossem mesmo e, pensando bem, certos eventos dos últimos meses até que fazem sentido, à luz do fim do mundo).

O prédio do meu vizinho é todo moderno, igual a esses dos folhetos que entregam no farol. Tem uma piscina de uma raia só, sala de ginástica e, como dizia o tapume, na época da obra, trata-se de um “personal home”. Isso me intriga bastante: haverá algum lar que não seja pessoal? Talvez o termo signifique que os apartamentos tem apenas um quarto – ou dormitório, que é, paradoxalmente, o nome que o quarto tem enquanto ninguém dorme nele.

Agora imagino o meu vizinho, solitário em seu personal home, com sua piscina de uma raia só, tentando fazer contato com cornetas, luzes e bandeiras. Sinto pena dele. Um pouco de culpa também, por tratá-lo com cinismo e superioridade. Afinal, não tem nada de errado em ser brasileiro na copa, natalino no natal.

Acho que o solitário sou eu, que não me junto ao coro nacional de cornetas e rojões, não pisco na comunhão mundial de espírito natalino e luzinhas coreanas. Talvez eu sinta é inveja daquela janela, tão antenada com o resto do mundo, tão fiel ao calendário. Ele ali, defenestrando certezas e eu aqui, com minha janela deficitária, por onde só entram dúvidas e uma ou outra mariposa. Quanta pretensão, querer ser diferente... Papai Noel tá aí, gente, é uma realidade. Jingle bell, meu caro vizinho – e que venha o carnaval.

 

 



Escrito por Antonio às 01h47
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