Os dragões do meu quintal


 

                                      Flavonóides!

(Publicado no Guia do Estadão)

 

Uns crêem em Deus, outros no Diabo e há até quem espere do capitalismo a redenção de nossas pobres almas: eu acredito em substâncias. Analiso a tabela nutricional no rótulo de um chocolate com a seriedade de um exegeta, procuro verdades obscuras por trás da quantidade de calorias ou carboidratos de um suco de laranja como um rabino cabalista. Sei que, pela interpretação correta daqueles míseros gramas de fibras, sódio ou fósforo, pode-se vislumbrar a verdadeira face de Deus.

Ou do Diabo. Se, na boca do povo, o demônio atende por nomes como Tinhoso, Belzebu e Lúcifer, nas tabelas nutricionais esconde-se sob a alcunha de gorduras saturadas, fenilalanina, colesterol, sódio e, de uns tempos para cá, gorduras trans. (Não se deixe enganar por esse nome simpático, com ar de disco do Caetano em 79: as gorduras trans, dizem os especialistas, colam feito argamassa nas paredes das artérias).

         Comecei a temer as substâncias com a fenilalanina. Não tenho a menor idéia do que seja, mas faz alguns anos que a Coca-light traz o aviso, misterioso e soturno: contém fenilalanina. O McDonald´s, ainda mais incisivo, colou um adesivo no balcão de suas lanchonetes: “Atenção, fenilcetonúricos: contém fenilalanina”. Desde então, toda noite, ao por a cabeça no travesseiro, imagino diálogos como “...pois é, menina, o Antonio! Era fenilcetonúrico e não sabia. Fulminante. Tão novo, judiação...”

         O cidadão atento deve ter notado que o glúten, de uns anos para cá, também ganhou uma certa notoriedade nos rótulos. “Contem glúten”, dizem embalagens de uma infinidade de alimentos, sem mais explicações. Qual é a do glúten? Faz bem pra vista? Ataca o fígado? Derrete o cérebro? Podem os fenilcetonúricos comer glúten sem problemas?

         Como bom crente, sei que as substâncias matam, mas também podem salvar. Pelo menos, é o que espero do chá verde e seus incríveis flavonóides, que venho consumindo com fervor e regularidade nas últimas semanas. Você sabe o que são flavonóides? Pois é, eu também não, mas o rótulo do tal Green Tea avisa, com grande júbilo (um pequeno gráfico), que uma garrafinha tem quatro vezes mais flavonóides do que o suco de laranja e treze vezes mais do que o brócolis. Diz ainda, à guisa de explicação, tratar-se de poderoso anti-oxidante. Fico muito tranquilo: posso cair fulminado pela fenilalanina ou sofrer as insuspeitas mazelas do glúten, mas de enferrujar, ao que parece, estou a salvo.



Escrito por Antonio às 01h48
[ ] [ envie esta mensagem ]


                            De novo?!

(Publicado no Guia do Estadão)

 

Todo ano é assim. Numa certa época, percebo um zumbido estranho, um incômodo indefinido, um leve formigamento estomacal. Abro então o jornal e me dou conta: é a Mostra Internacional de Cinema que voltou para me atormentar.

Durante duas semanas, além da dor nas costas, da situação pífia do Corinthians, das contas a pagar, da barriga que cresce e da vida que encurta, da alopécia e da triste eleição para presidente, ainda tenho que arrastar essa sensação perene de que, a todo momento, estou deixando de assistir algum filme importantíssimo.

Vou almoçar: pronto! Perdi a mais nova revelação do cinema Búlgaro. Marquei dentista? Burro! Bem na hora do documentário definitivo sobre o nazismo! Só enquanto digito essas lamúrias, por exemplo, estou perdendo um documentário israelense, um filme italiano e um mexicano transcorrem sem mim, a chance única de ver Niemeyer falando de seus projetos se vai.

Como vou fazer por aí, quando disserem “o cinema malaio tem evoluído muito, não?”. Que posição tomarei se bateram na mesa e decretarem: “Altman já era!”? Se me perguntarem “Você curte Iñarritu?”, é capaz que eu responda: “frito ou ensopado?”.

Eu já não dou conta de um décimo da programação normal de São Paulo. Como é possível ver o Leon Ferrari na Pinacoteca, ir às peças que os Parlapatões estão encenando todos os dias em sua nova sede, assistir o show do Edgar Scandurra no SESC Carmo,  percorrer toda a Bienal de artes e ainda ganhar a vida, namorar e escovar os dentes?

Se fosse rico, contratava uma secretária. Dizia assim: “Dona Mirtes, aí estão as noventa e seis coisas que quero fazer essa semana. Coloca no Excel, faz umas tabelas, dá um jeito, por favor!”. Aliás, a Mostra podia criar um programa de computador. Você escreveria lá os seus horários de trabalho, área de circulação, atividades e preferências e ele bolaria alguns itinerários possíveis para as duas semanas.

Mesmo com uma eficiente Dona Mirtes e um moderníssimo Cinefiles 1.0 (copyright, por favor), o problema não estaria resolvido. Cada filme escolhido resulta em três ou quatro perdidos. A única coisa que me consola é que, em alguns dias, a mostra acaba. Só então poderei respirar aliviado, fazer palavras cruzadas ou tomar um pingado na padaria sem a angustiante sensação de estar perdendo alguma coisa incrível. Todo ano é assim.



Escrito por Antonio às 01h43
[ ] [ envie esta mensagem ]


[ ver mensagens anteriores ]
 
Histórico
29/04/2007 a 05/05/2007
22/04/2007 a 28/04/2007
15/04/2007 a 21/04/2007
01/04/2007 a 07/04/2007
11/03/2007 a 17/03/2007
11/02/2007 a 17/02/2007
21/01/2007 a 27/01/2007
03/12/2006 a 09/12/2006
26/11/2006 a 02/12/2006
22/10/2006 a 28/10/2006
17/09/2006 a 23/09/2006
27/08/2006 a 02/09/2006
06/08/2006 a 12/08/2006
30/07/2006 a 05/08/2006
14/08/2005 a 20/08/2005
20/03/2005 a 26/03/2005
13/03/2005 a 19/03/2005
20/02/2005 a 26/02/2005
21/11/2004 a 27/11/2004




Votação
Dê uma nota para
meu blog



Outros sites
 UOL - O melhor conteúdo
 BOL - E-mail grátis