Os dragões do meu quintal


                                     Quem pinta?

(Publicado no Guia do Estadão)

 

Se uma hecatombe nuclear mandar tudo pelos ares e o único resquício de nossa civilização for a porta de um banheiro público, os arqueólogos do futuro chegarão a conclusão de que éramos uma sociedade pouco evoluída, monoteísta e dedicada a adoração do Grande Deus Pênis.

A leitora, pertencente a metade mais ilustrada da humanidade, talvez não saiba, mas todos os banheiros masculinos do país, do boteco sórdido ao aeroporto internacional, têm rabiscados em suas portas -- além de escudos de times e piadas infames -- pintos de todas as cores e tamanhos.  

Eu entendo os motivos estúpidos que levam o torcedor fanático a escrever “Timão eô!” na parede do banheiro. Compreendo o impulso que encoraja o sujeito reprimido a sacar sua caneta e deixar nas paredes do WC apreciações pouco elogiosas sobre o presidente da república ou o chefe da firma. Mais do que tudo, olho com ternura para o pobre diabo que, tendo como cúmplice apenas um vaso sanitário, aproveita para declarar seus sentimentos mais profundos: “Waleska te amo, ass. Anderson do RH”. Essa obsessão peniana, no entanto, me é incompreensível.

Fico imaginando o pai de família sentar-se na privada e, protegido pelo anonimato de fórmica e azulejos, tirar a caneta do bolso. O coração acelera, pequenas gotas de suor surgem na testa e, com a alegria ardente das pequenas transgressões, o trabalhador honesto, bom marido e rotariano respeitado  desenha  o aparelho genital masculino, cheio de detalhes, na porta do banheiro.

Será que ao deitar a cabeça no travesseiro e revisar o dia,  o cidadão se arrepende de seus arroubos urolográficos? No fim do ano, quando pula ondas, come lentilhas e pensa no futuro, o vândalo sanitário pede ajuda aos deuses para deixar o vício? Ou, pelo contrário, não tem nenhuma vergonha de seus atos? Todo sábado, junta-se a seus confrades num boteco e, entre cervejas e amendoins, bate no peito: “Cês tem que ver o que eu fiz lá no Belas Artes! Da maçaneta até o chão! Azul e verde, uma beleza!”. Ao que outro sugere, tirando da pasta um estojo de canetas coloridas: “Vamos pra Osasco no domingo? Parece que abriu um shopping novo...”.

Se uma hecatombe nuclear mandar tudo pelos ares, espero que não sobre uma única porta de banheiro para contar a história. Afinal, não gostaria de ser visto pelos arqueólogos do futuro como parte de uma sociedade pouco evoluída, monoteísta e dedicada a adoração do Grande Deus Pênis. Muito embora, pensando bem, a descrição até faça sentido.



Escrito por Antonio às 16h37
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                                      Caos e celulose

 

(Publicada no Guia do Estadão)

 

Estou feliz e satisfeito. Se não tivesse que escrever esta crônica, até abriria uma cerveja: acabei de eliminar o último montinho da casa, o maior, que me acompanhava há mais de um ano. Não sei se você, disciplinado leitor, também sofre desse mal -- o montinho -- mas a minha vida é uma eterna e inútil luta contra eles.

Não faço idéia de como nascem. Um livro caído no canto? Uma conta de luz deixada por acaso ao lado do sofá? Algumas folhas impressas esquecidas perto do som? Sei que estou andando pela casa numa tarde qualquer e meus olhos tropeçam na pequena Quéops doméstica, feita de manuscritos inacabados e livros jamais começados, cartas abertas e fechadas, caixas de CDs sem discos e discos sem caixas, contas, revistas, folhetos imobiliários, post its ancestrais e outras milongas mais, a desafiar a simetria que eu, com inquebrantável otimismo, desejava para minha sala, para minha vida.

Depois do susto – mas como? Ontem mesmo não estava aí! -- vem um suspiro resignado – pois é, agora está, fazer o que? – e vou tratar de outros assuntos. Por que não vou lá e simplesmente arrumo a bagunça? Oh, proativo leitor, logo vê-se que não entende nada de montinhos. Desfazê-los é perigoso como desarmar uma bomba! Ou você vai até o fim na empreitada, ou acabará dividindo-os em vários montinhozinhos temáticos – aqui as cartas, aqui os livros, aqui revistas... – e, em questão de semanas, terá criado um irreversível arquipélago de bagunça. Mais do que isso: acocorar-se diante das camadas sedimentares do passado é repensar a própria vida. Jogo fora essas revistas ou compro uma estante? Essas contas... Não seria o caso de botar no débito automático? Olha só, aquele conto do Cortázar. Se eu fizesse um mestrado, quem sabe, poderia...  “Ligar urgente para Clélia – 87-98786754!!!”. Quem é Clélia? Oito sete é de onde? Será que eu liguei?

São tantas as indagações que surgem que tenho medo de, no meio da arrumação, decidir que minha verdadeira vocação é a odontologia, resolver passar seis meses na Índia ou fazer uma tribal na panturrilha.

Esta tarde, no entanto, apesar de todas as dificuldades, atirei-me com ímpeto à tarefa e desbaratei a última das barricadas de caos e celulose que restava em minha casa. Estou contente. Sinto que a vida é simples e boa. Mens sana in domus sano. Sento-me no sofá, observo a luz do sol atravessar a sala e sinto o sangue correr em minhas veias. Montinhos, nunca mais!, digo. Jogo a crônica de lado e vou abrir uma cerveja.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



Escrito por Antonio às 16h35
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