Os dragões do meu quintal


 

 

 

 

 

                                   Time is honey

(publicado no Guia do Estadão)

 

 

“No mais, tudo é menor. O socialismo, a astrofísica, a especulação imobiliária, a ioga (...) O homem só tem duas missões importantes: amar e escrever à máquina. Escrever com dois dedos e amar com a vida inteira”

Antonio Maria

 

 

Poucas coisas neste mundo são mais tristes do que um bolo industrializado. Ali no supermercado, diante da embalagem plástica histericamente colorida, suspiro e penso: estamos perdidos. Bolo industrializado é como amor de prostituta, feliz natal de caixa automático, bom dia da Blockbuster. É um anti-bolo.

Não discuto aqui o gosto, a textura, a qualidade ou abundância do recheio de baunilha, chocolate ou qualquer outro sabor. (O capitalismo, quando se mete a fazer alguma coisa, faz muito bem feito). O problema não é de paladar, meu caro, é uma questão de princípios. Acredito que o mercado de fato melhore muitas coisas. Podem privatizar a telefonia, as estradas, as siderúrgicas. Mas não toquem no bolo! Ele não precisa de eficiência. Ele é o exemplo, talvez anacrônico, de um tempo que não é dinheiro. Um tempo íntimo, vagaroso, inútil, em que um momento pode ser vivido no presente, pelo que ele tem ali, e não como meio para, com o objetivo de.

Engana-se quem pensa que o bolo é um alimento. Nada disso. Alimento é carboidrato, é proteína, é vitamina, é o que a gente come para continuar em pé, para ir trabalhar e pagar as contas. Bolo não. É uma demonstração de carinho de uma pessoa a outra. É um mimo de avó. Um acontecimento inesperado que irrompe no meio da tarde, alardeando seu cheiro do forno para a casa, da casa para a rua e da rua para o mundo.  É o que a gente come só para matar a vontade, para ficar feliz, é um elogio ao supérfluo, à graça, à alegria de estarmos vivos.

A minha geração talvez seja a primeira que pôde crescer e tornar-se adulto sem saber fritar um bife. O mercado (tanto com m maiúsculo como minúsculo) nos oferece saladas lavadas, pratos congelados, comida desidratada, self-services e deliverys. Cortar, refogar, assar e fritar são verbos pretéritos.

Se você acha que é tudo bem, o problema é seu. Eu vou espernear o quanto puder. Se entregarmos até o bolo aos códigos de barras, estaremos abrindo mão de vez da autonomia, da liberdade, do que temos de mais profundamente humano. Porque o próximo passo será privatizar as avós, estatizar a poesia, plastificar o amor, desidratar o mar e diagramar as nuvens. Tô fora.



Escrito por Antonio às 17h37
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                                               O Brasil na faixa

(cronica para o guia do estadão)

 

Como muitos brasileiros, eu também andava por aí, cabisbaixo e macambúzio, a chutar tampinhas de garrafa e maldizer a vida, o governo, o mal-tempo e o técnico da seleção. Foi quando conheci  o PSTM: Partido do Socialismo Tranqüilo e Moreno. Não se trata de mais uma nova sigla, fadada às velhas maracutaias: o PSTM tem um projeto civilizatório. Ou descivilizatório, como verá o amigo.

Quem me trouxe a luz da sabedoria foi um dos fundadores da agremiação, o ilustre professor Eduardo Correia. Mais tarde, um de seus discípulos, o Dr. Marcelo Behar, me pôs à par de todos os detalhes. (Eduardo fuma cachimbo, Dr. Behar trabalha de terno, de forma que não se pode duvidar da seriedade dos dois patrícios). O projeto do PSTM é de uma simplicidade tão grande (ou de uma grandeza tão simples), que cheguei a gargalhar de felicidade ao conhece-lo. Veja só: pega-se a extensão da faixa litorânea brasileira e divide-se pelo número de habitantes. O resultado é esplendoroso: 50 m de areia branca para cada cidadão. Chega de tentarmos ocupar o cerrado, povoar a caatinga, adentrar aquelas imensidões ermas. Já temos o sertão mítico de Euclides da Cunha e Guimarães Rosa para nosso desfrute. Para que queremos o real?

Com o PSTM o Brasil não vai pra frente, mas pro lado. Cada cidadão terá direito à sua faixa de areia e mais uns 200 metros de terra para dentro do país, apenas o suficiente para plantar uns coqueiros que dão coco, umas palmeiras onde cante o sabiá e o que mais lhe aprouver. A Amazônia e o Pantanal nós vendemos para a Europa, que já destruiu tudo o que tinha por lá e, cheia de culpa e de olho gordo nas patentes biológicas, irá cuidar das florestas. (Se não cuidar, também, já não será mais problema nosso). Os pampas a gente dá pra Argentina, em troca de carne, doce de leite, psicanalistas e centroavantes. O resto, vendemos para os EUA, que farão parques temáticos, resorts, campos de golfe e testes com armas nucleares.

Com o dinheiro da venda construiremos um SESC a cada tantos quilômetros, uns barzinhos que ofereçam peixe frito e cerveja gelada, uma linha de trem norte-sul para visitarmos amigos e parentes e sustentaremos uma ou duas gerações de vagabundos. Deitados eternamente em berço esplêndido (as cangas), poderemos enfim nos dedicar ao ócio, ao samba, ao futebol, à culinária e às grandes questões existenciais. Chegou a hora dessa gente bronzeada mostrar seu valor. Chegou a hora de assumirmos nossa vocação de Chile Atlântico. Chegou a hora de sermos felizes para sempre.



Escrito por Antonio às 03h10
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                                     Nós na fita

 (crônica para o Guia do Estadão)

 

O adesivo na Combi à frente dizia: “Não multa! Nóis tamu na luta!”. Ultrapassei a bendita, coloquei a cabeça pra fora e gritei, a plenos pulmões: “mensalão! Mensalão!” O motorista me olhou perplexo, acelerou e sumiu -- não sem antes, por via das dúvidas, mandar lembranças à minha mãe. Não foi o primeiro patrício a estranhar minhas atitudes.

         A coisa começou depois que Bob Jeff, ignorando a sábia lei que rege toda falcatrua  – a saber, Vaca Amarela --, botou a boca no trombone (e, logo, na panela). De lá pra cá virei uma CPI de um homem só, Taxi Driver do gogó: enfim, um chato a gritar aos quatro ventos nossos mensalões cotidianos. Logo que começou o escândalo, os jornais especulavam que mensalão podia ser mais amplo do que parecia. Gargalhadas. O mensalão está no pão nosso de cada dia, minha senhora!

O que era o adesivo da Combi senão mais um exemplo desse respeitadíssimo consenso nacional de que, se é para o nosso bem, a lei pode ser burlada? “Tamu na luta” significa: sou um cara legal, meus propósitos são bons: logo, posso passar no sinal vermelho, parar em cima da calçada e dirigir pelo acostamento sem ser multado.

Vou ao espaço Unibancool de Cinema. Aquele pessoal de aros grossos e fina estampa chega, olha a fila e vai logo pra frente, ver se conhece alguém e consegue um pequeno favorecimento na concorrência. “Mensalão! Mensalão!” (Diante dos meus gritos, umas garotas de cabelo verde acham que é performance e aplaudem. O resto só me olha com o mesmo susto do motorista e vira seus All Stars pro outro lado).

         Quantas pessoas eu não conheço, filhas da fina flor de nossas elites, que compraram suas cartas de motorista? “Mensalão! Mensalão!” E aqueles que têm TV à cabo pirata e ainda se defendem com um discursinho anti-capitalista de quinta, Robin Hoods dos jardins? Perto de São Paulo há cidadezinhas de quinze mil habitantes com mais empresas do que o Vale do Silício, todas paulistas, ali sediadas pra pagar menos impostos. Pagar multa, jamais: suborne o guarda. Fila dupla? Só um segundinho, enquanto eu vou pegar o meu filho ali na escola.

Quando Bob Jeff mandou a Vaca Amarela pastar, Lula disse que ia investigar as denúncias seriamente e que, se necessário, “cortaria da própria carne”. Na hora eu imaginei uma fila com todos os brasileiros, mergulhando igual o Tio Patinhas dentro de um enorme moedor de açougue. O que me tranqüiliza é que conheço muita gente e sempre conseguiria encontrar alguém na fila lá pra trás. Eu e meus amigos de aros grossos e fina estampa pularíamos por último. Mas pularíamos.



Escrito por Antonio às 03h08
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                                     Quem pinta?

 (crônica para o Guia do Estadão)

 

Se uma hecatombe nuclear mandar tudo pelos ares e o único resquício de nossa civilização for a porta de um banheiro público, os arqueólogos do futuro chegarão a conclusão de que éramos uma sociedade pouco evoluída, monoteísta e dedicada a adoração do Grande Deus Pênis.

A leitora, pertencente a metade mais ilustrada da humanidade, talvez não saiba, mas todos os banheiros masculinos do país, do boteco sórdido ao aeroporto internacional, têm rabiscados em suas portas -- além de escudos de times e piadas infames -- pintos de todas as cores e tamanhos.  

Eu entendo os motivos estúpidos que levam o torcedor fanático a escrever “Timão eô!” na parede do banheiro. Compreendo o impulso que encoraja o sujeito reprimido a sacar sua caneta e deixar nas paredes do WC apreciações pouco elogiosas sobre o presidente da república ou o chefe da firma. Mais do que tudo, olho com ternura para o pobre diabo que, tendo como cúmplice apenas um vaso sanitário, aproveita para declarar seus sentimentos mais profundos: “Waleska te amo, ass. Anderson do RH”. Essa obsessão peniana, no entanto, me é incompreensível.

Fico imaginando o pai de família sentar-se na privada e, protegido pelo anonimato de fórmica e azulejos, tirar a caneta do bolso. O coração acelera, pequenas gotas de suor surgem na testa e, com a alegria ardente das pequenas transgressões, o trabalhador honesto, bom marido e rotariano respeitado  desenha  o aparelho genital masculino, cheio de detalhes, na porta do banheiro.

Será que ao deitar a cabeça no travesseiro e revisar o dia,  o cidadão se arrepende de seus arroubos urolográficos? No fim do ano, quando pula ondas, come lentilhas e pensa no futuro, o vândalo sanitário pede ajuda aos deuses para deixar o vício? Ou, pelo contrário, não tem nenhuma vergonha de seus atos? Todo sábado, junta-se a seus confrades num boteco e, entre cervejas e amendoins, bate no peito: “Cês tem que ver o que eu fiz lá no Belas Artes! Da maçaneta até o chão! Azul e verde, uma beleza!”. Ao que outro sugere, tirando da pasta um estojo de canetas coloridas: “Vamos pra Osasco no domingo? Parece que abriu um shopping novo...”.

Se uma hecatombe nuclear mandar tudo pelos ares, espero que não sobre uma única porta de banheiro para contar a história. Afinal, não gostaria de ser visto pelos arqueólogos do futuro como parte de uma sociedade pouco evoluída, monoteísta e dedicada a adoração do Grande Deus Pênis. Muito embora, pensando bem, a descrição até faça sentido.



Escrito por Antonio às 02h59
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                            Tchau, seu Abelardo!

 (crônica para a Capricho)

Taxista bom é o seu Abelardo. A gente paga a corrida e leva grátis meia hora de sua sabedoria. Deve ser alguma promoção. Ele fala de todos os assuntos e defende teses bem originais. Acha, por exemplo, que os atentados de 11 de setembro não existiram. “Tudo efeito especial. Hollywood. Espilba, como é que chama aquele diretor? Esses americanos são fogo! Ou cê acha que neguinho ia ser idiota de meter um avião dentro dum prédio, com ele dentro? Nada. Quando cê for ver de novo, repara bem: efeito especial.”

Na última quarta ele estava especialmente inspirado. Quando eu disse que ia para casa da Maria, minha namorada, ele olhou pra mim com profunda compaixão e soltou: “faz isso não!” Isso o que, seu Abelardo? Seu Abelardo respirou fundo. “Olha, esse negócio de amor é um problema. Atrapalha a vida da gente. O que eu tenho de amigo que já se ferrou por causa do danado”. Que danado, seu Abelardo? “Como, que danado, rapaz? Presta atenção! O amor! Amar nunca dá certo. É saudade, é briga, é desolação. É só tristeza”. Tentei argumentar: mas seu Abelardo, veja só, eu amo, eu sou feliz! Seu Abelardo não deu a menor bola. “Você ainda é jovem, meu caro, não sabe de nada... Outro dia mesmo eu acordei quatro da madrugada com um corno gritando embaixo da minha janela: ‘eu te amo, Amália! Volta pra mim, Amália!’. Coitado. É o amor. E cê acha que a Amália voltou? Nada. Já tá com outro. E depois dá um pé na bunda dele ou ele na bunda dela e sofrem os dois. E pra que? Eu te pergunto: pra que?”.

Será mesmo, seu Abelardo? Eu, quando estou com a Maricota, fico tão feliz. A vida parece tão simples. “Viu só? E esse tempo todo cê podia tá estudando, trabalhando, juntando dinheiro. Tem casa própria?”. Não tenho não, seu Abelardo. “Não tem casa própria e fica gastando tempo de nhenhenhem com a namorada? Que desperdício. E depois ela te larga, cê vai ficar por aí sofrendo, não diz que não avisei.” Não larga não, seu Abelardo! Ela me ama! E se largar, eu sofro, choro, ouço um samba triste e depois passa, a gente sobrevive. “Nem sempre, meu jovem, nem sempre! O que tem de dor de cotovelo aí que toma formicida, pula da ponte, se joga no trilho do trem, é um problema”.

Eu já tava quase sugerindo que ele ligasse o rádio e ficasse quieto quando finalmente chegamos no prédio da Maricota. Ele olhou pra trás, sério. “Tem certeza que vai descer aí?” Tenho. “Se quiser eu te levo de volta e não cobro a corrida”. Deixa disso, seu Abelardo. Quanto foi? “Quinze reais”. Peguei. No que ele foi pegar o dinheiro, vi a aliança em seu dedo. Mas, seu Abelardo! O senhor é casado?! “Sou.” E ama a sua mulher? “Claro! Ou cê acha que eu aprendi essas coisas todas aonde?! No rádio?! Foge do amor, jovem! Foge enquanto é tempo!”. Tchau, seu Abelardo!



Escrito por Antonio às 02h57
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                            Brilhante do Togo

(crônica para o Guia do Estadão) 

Muitas vezes a gente só percebe que algo não vai bem quando já saiu completamente do controle. Eu, por exemplo, só me dei conta de que havia ido longe demais com a história do álbum da Copa no churrasco de domingo, logo após Brasil e Austrália, quando me peguei quase esganando uma criancinha e gritando “tira essa mão engordurada de cima das minhas repetidas!”

O pessoal me olhou assustado, a criancinha saiu chorando, mas também, caramba! O garoto vinha com um sanduíche de linguiça vazando vinagrete para cima do meu escudo brilhante do Togo! Vocês sabem o que tá valendo o brilhante do Togo por aí? Meu amigo Emilio tá oferecendo uma mobilete em bom estado por uma delas. Tá certo, eu exagerei, mas e se ele suja o meu bolo todo – onde estão os pais dessa criança?! – como é que eu fico?

Sei que não sou o único adulto enredado pelo novo vício. Vejo por aí profissionais respeitados fuçando o Orkut atrás das comunidades de troca. Namorados apaixonados que, em vez dos torpedos românticos de sempre, passaram a enviar mensagens como “o Júlio Baptista tá valendo 25 na Benedito. A gente tem?” Pelos bares, ouço os sussurros ansiosos: “aceita três Borowskis pelo seu Wanchope?”, “Nem a pau, o Wanchope  só pelo Clayton da Tunísia e a brilhante da Ucrânia. Vai?”.

Sim, estamos desequilibrados e a razão é muito simples. Na infância, álbum era uma brincadeira controlada pelos pais. As figurinhas vinham em conta-gotas, pois algum pedagogo malvado deve ter feito terríveis prognósticos de que filhos que ganhassem muitas figurinhas de uma vez só jamais aprenderiam a lidar com o Limite, a Saciedade, a Frustração, acabariam comendo todas as jujubas do pote e daí para maconha e a cocaína, já sabe, é um passo. Claro, havia pequenas variações em cada casa, dependendo da culpa dos pais e da habilidade da criança em manipulá-la, mas no geral era uma esfomeada ração de pacotinhos, ao final de cada dia. Então surge esse álbum da copa, em relação ao qual somos pais e filhos. Somos como ratinhos que, da noite pro dia, aprendem a controlar a alavanca de figurinhas.

Normal que nos empanturremos e não vejo nada de errado nisso. Sei que devo evitar certos exageros, como entrar no cheque especial ou gritar com criancinhas -- mesmo que elas ameacem o escudo brilhante do Togo com seus dedinhos lambuzados. Mas também, diabos!, se ninguém ensinar o Limite para esses meninos, o que será deles no futuro?

   



Escrito por Antonio às 02h56
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                                      Caos e celulose

(crônica para o Guia do Estadão) 

Estou feliz e satisfeito. Se não tivesse que escrever esta crônica, até abriria uma cerveja: acabei de eliminar o último montinho da casa, o maior, que me acompanhava há mais de um ano. Não sei se você, disciplinado leitor, também sofre desse mal -- o montinho -- mas a minha vida é uma eterna e inútil luta contra eles.

Não faço idéia de como nascem. Um livro caído no canto? Uma conta de luz deixada por acaso ao lado do sofá? Algumas folhas impressas esquecidas perto do som? Sei que estou andando pela casa numa tarde qualquer e meus olhos tropeçam na pequena Quéops doméstica, feita de manuscritos inacabados e livros jamais começados, cartas abertas e fechadas, caixas de CDs sem discos e discos sem caixas, contas, revistas, folhetos imobiliários, post its ancestrais e outras milongas mais, a desafiar a simetria que eu, com inquebrantável otimismo, desejava para minha sala, para minha vida.

Depois do susto – mas como? Ontem mesmo não estava aí! -- vem um suspiro resignado – pois é, agora está, fazer o que? – e vou tratar de outros assuntos. Por que não vou lá e simplesmente arrumo a bagunça? Oh, proativo leitor, logo vê-se que não entende nada de montinhos. Desfazê-los é perigoso como desarmar uma bomba! Ou você vai até o fim na empreitada, ou acabará dividindo-os em vários montinhozinhos temáticos – aqui as cartas, aqui os livros, aqui revistas... – e, em questão de semanas, terá criado um irreversível arquipélago de bagunça. Mais do que isso: acocorar-se diante das camadas sedimentares do passado é repensar a própria vida. Jogo fora essas revistas ou compro uma estante? Essas contas... Não seria o caso de botar no débito automático? Olha só, aquele conto do Cortázar. Se eu fizesse um mestrado, quem sabe, poderia...  “Ligar urgente para Clélia – 87-98786754!!!”. Quem é Clélia? Oito sete é de onde? Será que eu liguei?

São tantas as indagações que surgem que tenho medo de, no meio da arrumação, decidir que minha verdadeira vocação é a odontologia, resolver passar seis meses na Índia ou fazer uma tribal na panturrilha.

Esta tarde, no entanto, apesar de todas as dificuldades, atirei-me com ímpeto à tarefa e desbaratei a última das barricadas de caos e celulose que restava em minha casa. Estou contente. Sinto que a vida é simples e boa. Mens sana in domus sano. Sento-me no sofá, observo a luz do sol atravessar a sala e sinto o sangue correr em minhas veias. Montinhos, nunca mais!, digo. Jogo a crônica de lado e vou abrir uma cerveja.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



Escrito por Antonio às 02h55
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Camarão na moranga

 (crônica para o Guia do Estadão)

Ao contrário de mim, que cresci encharcado de cultura de massa, batatas fritas sabor churrasco e feijoada de microondas, minha amiga Clarissa é filha de eruditos, foi educada entre decassílabos, sonatas e camembert. Acreditem, isso faz uma baita diferença na hora de comprar uma abóbora.

“Ali tem um supermercado, ó”, eu disse. “Por que a gente não vai na quitanda?” ela me respondeu. Já estava instalada a cizânia.  (Os desentendimentos germinam nas mais insuspeitadas brechas).

“Eu acho que as abóboras do supermercado devem ser melhores”, falei. “Imagina! Na quitanda deve ser o próprio japonês que planta, num sítio, sem agrotóxicos...”, ela argumentou, fingindo que a discussão era Olivier Anquier quando na verdade – os dois sabiam bem --, estava muito mais para Michael Moore.

Não sei se você compreende, mas um supermercado e uma quitanda encontram-se em pólos opostos do espectro político. Era isso que o olhar da Cla, com fúria guerrilheira, me dizia: o supermercado era de direita, códigos de barra, imperialismo ianque;  a quitanda era de esquerda, papel pardo, Fórum Social Mundial.

 “Olha, Cla, eu entendo, eu também acho assim que, esteticamente, sabe, a quitanda, o japonês, o sitiozinho dele... Sou a favor, mas veja só, o supermercado deve ter uma pilha enorme de abóboras e a gente vai escolher uma linda, imensa!”.

Ela resolveu botar tudo em pratos limpos – talvez já desconfiando que seriam os únicos pratos possíveis aquela tarde: “cara, você realmente acredita nas corporações, né?”. Fez-se um longo silêncio. Não havia jeito. Mesmo sabendo o risco que corria se a informação chegasse a certas rodas, soltei: “Sim. Bom, eu sou a favor do japonês, da horta dele, da quitanda, mas acho que os tomates, as cebolas e abóboras do mega-hiper-mercado são melhores. Se eu tiver que votar num mundo quitanda ou num mundo supermercado, voto quitanda e faço campanha. Se tiver que fazer um camarão na moranga, vou no mercado”.

Clarissa ficou indignada. Não entendia como é que eu, que tinha estudado no, que tinha lido tal, agora olha só, imagina com quarenta, por isso que o mundo, nossos próprios amigos, imagina o Bush então, o mensalão, acabou, acabou, acabou.

Saímos andando, cada um pra um lado, frustrados, magoados e famintos. Sei lá, talvez a Clarissa tenha razão, talvez a gente devesse fazer alguma coisa, talvez um outro mundo seja possível. Nosso camarão na moranga, definitivamente, é que não.



Escrito por Antonio às 02h54
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