Por hoje é só. Depois coloco mais coisas. Um cafezinho e a conta, por favor.
Escrito por Antonio às 02h26
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Água de coco
(publicado na Capricho)
Quando fui ver, já tinha ficado amigo do coqueiro. Claro que não foi assim, de uma hora pra outra. Leva tempo até a gente se apegar realmente a um vegetal: eles não são muito expansivos, não falam nada e não dão sinais evidentes de afeto. Mas se você prestar bastante atenção, verá que uma boa amizade pode ser cultivada. Literalmente.
O coqueiro fica no jardim da casa que, recentemente, comprei em Ubatuba. Confesso que, nas primeiras vezes que fui pra lá, nem dei muita bola para ele. Da última vez, no entanto...
Era fim de tarde e eu estava cansado do dia de praia. Sentei na varanda, estiquei as pernas em cima de um murinho, olhei o sol se pondo, o céu vermelho, o mar dourado e, diante desse cenário de calendário de despachante eu já estava quase me convencendo de que a vida era boa e tudo ia dar certo no final. Mas eis que minha atenção foi desviada pelo tal coqueiro.
Você deve saber que bastam algumas horas na praia para as coisas irem mudando dentro da gente. Vamos ficando mais calmos, contemplativos, os pensamentos vão se tornando profundos e leves, cadenciados pelo barulho das havaianas batendo no calcanhar, das ondas batendo na praia... A gente fica num meditar tranqüilo como o balanço da rede... (E com vontade de acabar todas as frases com reticências...). Foi nesse espírito que olhei o jardim e, quando dei por mim, já tinha pensado: esse coqueiro é gente fina. É uma árvore desengonçada, magrela, reta e com aquela cabeleira toda desarrumada, lá no alto, que nem o Louco da turma da Mônica. Deve ser um piadista. Um desses caras altos e meio tímidos, mas com um humor afiado. E, cada vez mais empolgado por esse clima hippie-praiano (deve ser a maresia), comecei a pensar: pô, ele é um ser vivo, eu também. Ambos temos que nos alimentar, beber água e respirar. Ambos nascemos e ambos morreremos. Aconteceu de eu ser gente e de ele ser coqueiro, a evolução o levou a fazer cocos e eu a fazer histórias, mas num passado longínquo éramos o mesmo microorganismo.
No terceiro dia na praia eu já estava até pensando em abraçar o coqueiro e chamá-lo de meu irmão, mas tive que voltar a São Paulo. Ainda bem. Não sou do tipo que abraça árvores. Não ainda.
Hoje à tarde, num dia frio e cinza, senti saudades. Querendo saber mais sobre o assunto, liguei para a Paula, minha amiga bióloga. Tirei-a das profundezas obscuras de seu mestrado e perguntei: Paula, diz aí tudo o que você sabe sobre coqueiros. Durante alguns minutos escutei coisas fabulosas. Por exemplo: na África morrem mais pessoas atingidas por cocos que caem da árvore do que em acidentes aéreos; a carne do coco chama-se endocarpo e, o mais esdrúxulo; a água que a gente bebe é o endosperma. Nesse momento, pedi para ela parar. Era mais informação do que eu precisava. Endosperma? Que coisa é essa? Mudei de assunto, mandei beijos para a família e desliguei. Há coisas que a gente não precisa saber sobre os amigos.
Escrito por Antonio às 02h25
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O resto é papo furado
(publicado na Capricho)
Fico aqui tentando falar de temas importantes: a morte, a vida, o sexo, as guerras, o amor, Deus e o mundo. Temas sobre os quais, é verdade, eu não sei quase nada. E perdido nesta obstinação pelo grande, pelas coisas sérias, me esqueço do fundamental. Como naquela fábula do poeta que caiu num poço porque andava olhando as estrelas, milhares de coisas muito mais importantes do que as supostamente mais importantes nunca entraram nesta coluna, pois estavam bem embaixo do meu nariz enquanto eu olhava para cima. A cebola, por exemplo.
Como nunca falei sobre a cebola? Ela é minha companheira nesta vida. Todo dia me traz alegria, seja frita, refogada, na salada, no bife, na sopa. Ela é tão fundamental que, se um dia eu for condenado à morte e tiver um último pedido, direi: refoguem uma cebola. Quero sair daqui sentindo o cheiro dos cubinhos cristalinos estalando na manteiga ou no azeite. Cheiro da casa da avó na infância. Cheiro que vem, lá pelo meio dia, da casa ao lado, me lembrando que ali também há uma família, que são pessoas como eu e em breve sentarão em torno de uma mesa e celebrarão mais um dia sobre a Terra, temperado com cebola.
Alguém aí pode dizer que a cebola tem um grande defeito: seu cheiro forte. Ninguém a come antes de encontrar o namorado. (Principalmente, se ainda não for namorado). Acho que isso não é de maneira nenhuma um defeito. Apenas realça a força deste divino alimento. Pois a cebola, como tudo o que é importante, exige sacrifícios. Numa época em que queremos ter tudo ao mesmo tempo agora, ela nos lembra que isso é impossível, nos fazendo abdicar do que pode ser o mais fundamental nesta vida: o amor. Eis o dilema que ela nos coloca: ou eu ou o beijo. E muitas vezes, atraídos por seu forte sabor, abrimos mão de outra boca para trazermos seu sabor à nossa. A cebola, nos obrigando a optar entre uma coisa ou outra, nos dá uma lição de humildade, nos lembra que não podemos ter tudo, que a vida é feita de escolhas e que pagamos um preço por elas.
Cebola na brasa, enrolada em papel alumínio (e depois comida com manteiga derretida), cebola refogada no arroz, cebola em rodelas, dourada, sobre um bife, onion rings, sopa de cebola, a cebola translúcida no caldo da moqueca, emprestando seu sabor ao peixe e ao camarão. São tantas as maravilhosas variações deste eclético alimento e eu aqui falando de primeira vez, empregos, política...
Como é que a gente pode ser tão cego para ver o que está na nossa frente? Alguém disse que é preciso ser um monge para enxergar o óbvio. Não sou um monge, mas tenho meus lampejos de sabedoria e percebo que o óbvio, leitora, é a cebola. O resto é papo furado.
Escrito por Antonio às 02h23
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Força, Margareth!
(publicado na Capricho)
Branca de Neve, 63 anos, está morando nos subúrbios de Miami desde o final da década de 80. Ainda conserva as bochechas rosadas de antigamente, embora a implacável ação do tempo e algumas plásticas mal-sucedidas tenham tirado a maciez da juventude. O negro dos cabelos continua igual, e ela nega usar qualquer tintura. “Só faço hidratação e, ultimamente, escova progressiva. A cor é a que Deus me deu”.
Não foi fácil convencer Branca a dar a entrevista. Só topou conversar com a Capricho depois que o Tato e a Brenda escreveram, dizendo que não publicaríamos nada que ela não autorizasse. Uma carta dos três porquinhos, dizendo que já haviam participado da sessão “Estive Pensando”, sem danos às suas imagens, também foi de grande ajuda. Vamos à entrevista, concedida por telefone.
Em primeiro lugar, Branca de Neve, esse é seu nome mesmo? Ninguém se chama Branca de Neve, né? Meu nome é Margareth Wilson McBright. McBright por parte do meu ex-marido.
O príncipe? Prícipe? Ha! Ha! É impressionante como as pessoas acreditam nos contos de fadas. Bom, eu também, no início, acreditei, só porque ele chegou à cavalo. Ele era um cafa ridículo. Queria era pegar todas dos contos de fada. No primeiro ano de namoro, deu em cima de todas as minhas amigas: Cinderela, Bela Adormecida, Rapunzel. Até nas fadas madrinhas ele passou umas cantadas.
Nossa! E aí, você se separaram? Sim, já faz mais de dez anos. Há cinco anos me casei com um dos caçadores que mataram o lobo mau. O Brian. Tudo ia bem, mas há uns meses ele foi processado pelo Greenpeace e está cumprindo cinco anos de cadeia.
Nossa, Branca, sua vida foi difícil, né? Muito. Não é fácil ser ex-personagem de contos de fadas. Você tem toda aquela exposição por um tempo, mas depois te esquecem e você é trocada por um Schrek, um Toy Story qualquer. É triste.
E por que você foi para os EUA? Nos anos oitenta, vim pra cá fazer uma plástica, arrumei uns freelas em publicidade e acabei ficando. Fiz muita propaganda de sabão em pó. Ganhei algum dinheiro até.
E quais os planos para o futuro? Estou pensando em abrir uma escolinha ensinando jovens a fazer carreira em conto de fada. Dar uma orientação, ver quem tem mais jeito pra princesa, quem daria uma boa fada, uma madrasta, essas coisas. Tem muita menina talentosa aí, elas só precisam de orientação.
* * *
Fizemos mais algumas perguntas, principalmente sobre um suposto processo que os sete anões estariam movendo contra Branca de Neve, à respeito de direitos autorais. Ela não quis responder e desligou o telefone bruscamente. Correm em Miami boatos de que Branca esteja muito deprimida e que sofre a tragédia do alcoolismo. A reportagem da Capricho torce para que sejam mentiras infundadas e que nossa querida Branca volte a ser valorizada como um dia já foi. Força, Margareth!
Escrito por Antonio às 02h21
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Azaléias
(publicado no guia do Estadão)
A Av. Rebouças às seis e meia da tarde é um bom exemplo desse papo de fim das utopias. Sentados em nossos carros, cercados de aço, concreto, outdoors e monóxido de carbono, percebemos que não há progresso possível e que tanto as saídas pela esquerda (Pinheiros, pra quem sobe) como pela direita (Jardins) estão fadadas ao fracasso. Só nos resta, portanto, entregarmo-nos ao escapismo consumista (balinhas ou castanha de caju, vai do freguês) e torcer para achar alguma rádio que não esteja passando propaganda política.
Ao longo do século XX, fascismo, comunismo, livre mercado e social democracia deram com os burros (nós) n’água. A única saída ainda não experimentada, meus amigos, é a minha ditadura. Sim, eu no poder. Venho pensando nisso há um bom tempo e já esbocei algumas soluções. Minha primeira ação, de cunho simbólico, será fazer a Cardeal Arcoverde Subir e a Teodoro descer. “Mas isso melhorará o trânsito?”, perguntará o interessado leitor. Não, queridão, mas quebrará o paradigma. Mostrará a todos que não estou para brincadeiras. Nesse mesmo embalo, dinamitarei o Borba Gato, o que é uma atitude tanto estética (ê coisa feia!), quanto política (não podemos cultuar um assassino em pleno século XXI). Em seu lugar, penso em construir alguma imagem do repertório popular, como um enorme Saci Pererê, o Cascão ou uma loira do Tcham!, de 25 metros, pra animar o pessoal, fortalecer nossas raízes e dar o tom de meu caudilhismo lúdico.
“Paliativos, paliativos”, dirá o engajado leitor. Pois veja então minha solução para a questão social, precocemente elaborada no auge de meus cinco anos: cheque pro pessoal. Na época em que expliquei o plano à minha mãe, ela esboçou alguma resposta no sentido de que a quantidade de papel moeda tinha que ser proporcional às reservas do país, do contrário, geraria-se inflação. Balela. Se mamãe continuar com esse papo, mando ela (com um talão bem gordo) para um exílio em Paris. E, mesmo que a gente se estrumbique a médio prazo, a turma terá algumas semanas de inesquecível gozo com suas folhinhas mágicas.
O espaço é curto, a vida é longa e também minhas ambições como ditador. Só digo, humildemente, para terminar, que se tudo der errado a gente aterra São Paulo, planta umas azaléias e se muda pra Bahia, gerando emprego, ar puro e a possibilidade, sempre agradável, de pegar uma corzinha.
Escrito por Antonio às 02h20
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Eu ? adesivos
(publicado no guia do Estadão)
Se o leitor ou a leitora conhecem um bom psiquiatra, favor entrar em contato com a redação -- sofro de um raríssimo distúrbio cognitivo: não entendo adesivos.
Tudo começou com “Deus é fiel”. Li e pensei: como assim? Seria um complô corintiano? Deus não era apenas brasileiro como torcedor do Timão e membro de sua torcida organizada? Fontes ligadas ao parque São Jorge, no entanto, me asseguraram que não: a Gaviões não tinha nada a ver com aquilo. Mas então... Por acaso alguém acha que Deus vai deixar o pessoal na mão? Que na hora agá ele pode resolver barrar as almas caridosas e salvar, sei lá, o Ozzy Osbourn, só de sacanagem?
Se com o problema religioso-desportivo fiquei intrigado, qual não foi minha desorientação ao ver pipocar, em dezenas de carros, a enigmática mensagem “No vaca”. Seria um surto de moralismo? Quem sabe a mesma turma da fidelidade divina quer agora dizer que naquele carro só entra moça direita? Mas chamar mulher de vaca, assim, sem o menor pudor, me parecia bem pouco cristão. Um amigo me explicou: “vaca” é o termo utilizado por surfistas para denominar aquilo que os comuns dos mortais conhecem como caldo ou capote, a saber: ser arrastado pela onda, girando, engolindo água, areia e estrelas do mar. O que eles querem dizer -- em portunglês -- é que surfam bem. Por que raios alguém comunica aos outros motoristas suas qualidades surfísticas, isso meus amigos não souberam explicar.
Nos últimos meses achei que a doença estava piorando. Em vários carros via um pequeno emaranhado de fios e bolinhas, uma espécie de ideograma cambojano, coisa estranhíssima. Já não era apenas o sentido do adesivo que me escapava: os próprios caracteres estavam embolados. Mais uma vez os bons amigos me explicaram, pacientemente: o emaranhado era um contorno da Virgem Maria, envolta por um terço. Ahhh...
Curioso. Um arqueólogo que tente decifrar nossos dias daqui a milênios ficará confuso. Baseando-se nos carros encontrados nas escavações, dirá que o começo do século XXI assistiu a uma acirrada divisão da humanidade, entre cristãos e praticantes de esportes aquáticos. E, caso encontre, no porta-luvas de um automóvel, as páginas amareladas deste guia, verá que enquanto uns pregavam a salvação celestial e outros alardeavam suas habilidades aquáticas, havia quem assistisse a tudo com os dois pés atolados na areia movediça da perplexidade. Tempos estranhos aqueles...
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Escrito por Antonio às 02h18
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Vitela simbolista
(publicado no guia do Estadão)
Dia desses, neste mesmo espaço, André Laurentino escreveu, com muita propriedade, sobre cardápios. Se volto ao assunto não é por falta do que falar, mas pela relevância do tema: numa cidade como São Paulo, internacionalmente conhecida pela qualidade de seus restaurantes, a análise de menus é tão importante quanto a vigilância sanitária. Reclamava o cronista que estavam complicando os cardápios. Digo mais: agora, os estão tematizando.
A originalidade, meus caros, nem sempre é uma virtude. Chamar a mulher amada de “colibri de meu jardim” e a morte de “a inesperada das gentes” é bom na literatura, mas bife com batata frita tem que ser chamado, pelamordedeus, de bife com batata frita.
Outro dia fui num restaurante onde tudo era cinema. Abri o cardápio e dei de cara com um filé à Indiana Jones, que vinha com batatas Casablanca e legumes ao molho Sorcese. Veja só: o incauto cliente chega lá faminto e é obrigado a atirar-se numa exegese gastronômico-cinematográfica para descobrir que Indiana Jones é bife ao molho madeira, a batata Casablanca é simplesmente assada e molho Scorcese uma manteiga com ervas. Tive vontade de chamar o mâitre e dizer: queria comer alguma coisa de humor, sei lá, meio Woody Allen, meio Irmãos Marx, o que vocês têm? Ou então: estou com pouca fome, os senhores servem curta metragem?
Já tinha deixado de lado o episódio quando fui a uma pizzaria. Ao abrir o cardápio, pensei que houvesse pego uma agenda telefônica por engano: as pizzas todas tinham nomes de mulher. E para descobrir, entre Carolinas, Julianas e Bárbaras, quem era a portuguesa? Depois de muita leitura, achei: era a Mariana. Anotei no guardanapo, para não esquecer, enquanto gastava mais alguns minutos até entender que a marguerita ali atendia por Vanderléia. Será que para comer meia marguerita, meia portuguesa, pedimos uma Mariléia, ou Vanderana? A pizza era até razoável, mas saí do restaurante pensando em sugerir ao dono batizar seus filhos de Catupiry, Napolitana, e Alichinho.
Talvez o leitor rabugento diga: “que bobagem! Tanto problema no mundo e ele se preocupando com cardápios!” Tá legal, eu aceito o argumento. Mas quando os menus tomarem a densidade literária de um Joyce e o leitor rabugento tiver que descobrir, com a barriga roncando, o que é uma sinestesia de vitela simbolista ou um pavê Niemayer com calda Lúcio Costa, não conte com a minha ajuda.
Escrito por Antonio às 02h16
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Os novos bares velhos
(publicado no Guia do Estadão)
A primeira vez que me convidaram para ir a um bar carioca, recusei a proposta com um certo espanto. Disse que estava pensando em tomar uns chopes, não a ponte aérea. Meu amigo riu: o bar carioca ficava em Pinheiros. Como assim?!
Logo que entrei, entendi tudo. Era uma espécie de botequim carioca de cidade cenográfica. Um Rio de Janeiro de Epicot Center. Estavam ali, lado a lado, todas as idéias que um paulista tem de um boteco da cidade maravilhosa: bolinho de bacalhau, sanduíche de pernil, chope bem tirado, mesas com tampo de pedra e cadeiras de madeira, filé a Oswaldo Aranha e garçons de gravata borboleta e ar aristocrático, desses que parecem trabalhar por vocação e já ter servido, em outros dias, o leite de Nelson Rodrigues e o uísque de Vinicius de Moraes. Um velho bar carioca era o novo bar paulista. Isso foi no fim da década de 90.
De lá pra cá, o estilo se multiplicou e se transformou. Os bares já não imitam mais o Rio, mas recriam uma espécie de passado paulista. Pirajá, Original, Astor, Filial, São Cristóvão e outros são bares que não querem ser modernos, a última moda em Nova York, querem ser antigos. Balcões de madeira escura, máquinas de chope com cara de começo do século XX, pisos de ladrilho hidráulico. No cardápio, pratos e petiscos “populares” são servidos com pompa e circunstância: sanduíche de mortadela, picadinho, coxinha e empada estão no lugar onde, anos atrás, em bares “bacaninhas”, encontraríamos coisas com nomes franceses, italianos, japoneses.
É como se São Paulo tivesse uma onda nostálgica e, cansada de macaquear as metrópoles de primeiro mundo, decidisse voltar para casa, para o colo da mãe. Mas aí: surpresa! A mãe não existe mais. Não se constrói nova Faria Lima sem derrubar o velho Itaim. Não suportamos o que tem mais de trinta anos, por isso jamais teremos nada de cem.
Lévi-Strauss escreveu em Tristes Trópicos que, se “Para as cidades européias, a passagem dos séculos constitui uma promoção; para as americanas a dos anos é uma decadência”. Claro, para a Notre Dame, um século a mais é uma melhora. Para o Shopping Eldorado, duas décadas é a ruína. Cansados dos velhos novos bares, a gente investiu nos novos bares velhos. O que talvez seja a mesma coisa. Ou não, como já dizia o poeta.
Escrito por Antonio às 02h13
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Kichute
(publicado no guia do Estadão)
Na escala hierárquica dos sentimentos, a nostalgia não ocupa uma das posições mais privilegiadas. Talvez porque seja uma emoção fácil de usar -- algo assim como um Sazon sentimental -- sob a qual qualquer bife duro do passado torna-se a mais tenra picanha na lembrança do presente.
Embora na culinária eu aplique uma certo rigor metodológico – no churrasco só sal grosso e nem pense em colocar catchupe na pizza! --, quando se trata da vida, da nossa própria história e da maneira como a encaramos, aceito algum artifício no sabor: uma dose de exagero ou uma colher de ficção.
Dito isso, posso afirmar, com algumas pitadas de Sazon: tenho saudades da São Paulo de antigamente. Não me refiro às décadas de 40 ou 50, mas à cidade de quinze, vinte anos atrás. (Uma das peculiaridades de se viver em São Paulo é que a gente pode sentir nostalgia da semana passada. “Você lembra quando íamos namorar naquela praça, numa rua cheia de árvores e casinhas geminadas, onde hoje é um shopping center?”, digo à minha namorada. “Claro que sim, Antonio, foi em outubro, não?”).
Nesse passado próximo, em algum momento entre a semana passada e a década de oitenta, muita coisa era diferente. Os orelhões eram cor de laranja e os táxis não eram necessariamente brancos. Havia Kichutes pendurados nos fios a cada quarteirão. As bancas eram viradas para a rua, não para a calçada, e só vendiam jornais e revistas, nada de coco gelado, refrigerantes e cervejas. Pelos muros havia uma única e enigmática pixação: Juneca Pessoinha. (Acho que foram essas as primeiras palavras que li na vida). Os pontos de ônibus eram rústicas estacas de madeira, pintadas em dois tons. Os supermercados abriam de manhã e fechavam à noite. Vinte e quatro horas, só pronto-socorro.
Parece que foi ontem e, quem sabe, foi mesmo. Impossível saber. Numa cidade que parece ter tomado como proposta urbanística o mote do Super-Homem (“para o alto e avante!”), talvez o único consolo possível seja esse sorriso saudoso. E enquanto vão derrubando a paisagem antes que se torne memória, me apego à lembrança de um kichute balançando num fio de telefone. Pode ser um pouco piegas, mas com algumas pitadas de nostalgia, até que fica uma imagem bonita para terminar a crônica, não?
Escrito por Antonio às 02h12
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É natal. Socorro.
(texto publicado no guia do Estadão)
Podem me chamar de mal humorado, chato e neurótico. Mas quem é que não fica mal humorado, chato e neurótico ao pegar trânsito às dez e meia da noite porque um shopping center, aproveitando-se do aniversário de dois mil e quatro anos do nascimento de Jesus, resolveu botar um trio elétrico com duentes e fadas em cima, dançando uma versão remix de Noite Feliz, no meio da avenida? Pois foi o que me aconteceu um dia desses e, não havendo nada a fazer, restou-me respirar fundo, dizer “é natal” e tentar perdoar a rave dos seres encantados da floresta.
O que me incomoda nesta época não é somente a algazarra publicitária, tentando nos vender paz, panetones, amor, margarina, perdão, presunto, felicidade, Cidra Cereser e compaixão -- à vista, à prazo ou em até três vezes no cartão. O que me irrita é o descompasso entre toda a parafernália natalina do hemisfério norte e nosso cenário de palmeiras, onde canta o sabiá.
Pois chega dezembro, a temperatura sobe, mas as vitrines das lojas e as propagandas começam a mostrar nevascas de isopor, ursos polares, pinheiros, renas e outros produtos exóticos. (Como que confirmando meus argumentos, o corretor ortográfico do word acaba de grifar nevascas de vermelho, coisa que, embora tenha dado à palavra uma aparência mais natalina, prova que até o termo, nessas latitudes, destoa).
Há uma cena antológica no filme Bye Bye Brasil em que o mágico, interpretado por José Wilker, diz ao povo de uma cidadezinha perdida do Norte do país que vai lhes dar o que os brasileiros mais querem. Comida? Emprego? Saúde? Educação? Não, neve, diz ele, e começam a cair as bolinhas de isopor dentro do circo. Como os delírios dos artistas sempre acabam ficando obsoletos na concorrência com a realidade, imagino que, em alguns anos, chegaremos ao ápice de nosso capitalismo natalino e teremos neve. Claro, não será na cidade toda, mas só em alguns locais privilegiados. Os Jardins, por exemplo. O bairro poderia ser coberto por uma enorme redoma refrigerada, que faria nevar sobre a Oscar Freire e arredores. As moças usariam seus casacos de pele, os esportistas praticariam ski e snowboard na Augusta e alguns bambis, soltos pelas ruas, fariam a alegria da criançada.
Sem dúvida a neve causaria alguns transtornos ao trânsito e àqueles que ainda não tiveram a oportunidade de adquirir os seus visons, mas isso é apenas um detalhe que poderá ser superado, como sempre, em prol da minoria. E, afinal, gente, pratiquemos a tolerância: é natal!
Podem me chamar de mal humorado, chato e neurótico. Mas quem é que não fica mal humorado, chato e neurótico ao pegar trânsito às dez e meia da noite porque um shopping center, aproveitando-se do aniversário de dois mil e quatro anos do nascimento de Jesus, resolveu botar um trio elétrico com duentes e fadas em cima, dançando uma versão remix de Noite Feliz, no meio da avenida? Pois foi o que me aconteceu um dia desses e, não havendo nada a fazer, restou-me respirar fundo, dizer “é natal” e tentar perdoar a rave dos seres encantados da floresta.
O que me incomoda nesta época não é somente a algazarra publicitária, tentando nos vender paz, panetones, amor, margarina, perdão, presunto, felicidade, Cidra Cereser e compaixão -- à vista, à prazo ou em até três vezes no cartão. O que me irrita é o descompasso entre toda a parafernália natalina do hemisfério norte e nosso cenário de palmeiras, onde canta o sabiá.
Pois chega dezembro, a temperatura sobe, mas as vitrines das lojas e as propagandas começam a mostrar nevascas de isopor, ursos polares, pinheiros, renas e outros produtos exóticos. (Como que confirmando meus argumentos, o corretor ortográfico do word acaba de grifar nevascas de vermelho, coisa que, embora tenha dado à palavra uma aparência mais natalina, prova que até o termo, nessas latitudes, destoa).
Há uma cena antológica no filme Bye Bye Brasil em que o mágico, interpretado por José Wilker, diz ao povo de uma cidadezinha perdida do Norte do país que vai lhes dar o que os brasileiros mais querem. Comida? Emprego? Saúde? Educação? Não, neve, diz ele, e começam a cair as bolinhas de isopor dentro do circo. Como os delírios dos artistas sempre acabam ficando obsoletos na concorrência com a realidade, imagino que, em alguns anos, chegaremos ao ápice de nosso capitalismo natalino e teremos neve. Claro, não será na cidade toda, mas só em alguns locais privilegiados. Os Jardins, por exemplo. O bairro poderia ser coberto por uma enorme redoma refrigerada, que faria nevar sobre a Oscar Freire e arredores. As moças usariam seus casacos de pele, os esportistas praticariam ski e snowboard na Augusta e alguns bambis, soltos pelas ruas, fariam a alegria da criançada.
Sem dúvida a neve causaria alguns transtornos ao trânsito e àqueles que ainda não tiveram a oportunidade de adquirir os seus visons, mas isso é apenas um detalhe que poderá ser superado, como sempre, em prol da minoria. E, afinal, gente, pratiquemos a tolerância: é natal!
Escrito por Antonio às 02h11
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Time is honey
(publicado no guia do Estadão)
“No mais, tudo é menor. O socialismo, a astrofísica, a especulação imobiliária, a ioga (...) O homem só tem duas missões importantes: amar e escrever à máquina. Escrever com dois dedos e amar com a vida inteira”
Antonio Maria
Poucas coisas neste mundo são mais tristes do que um bolo industrializado. Ali no supermercado, diante da embalagem plástica histericamente colorida, suspiro e penso: estamos perdidos. Bolo industrializado é como amor de prostituta, feliz natal de caixa automático, bom dia da Blockbuster. É um anti-bolo.
Não discuto aqui o gosto, a textura, a qualidade ou abundância do recheio de baunilha, chocolate ou qualquer outro sabor. (O capitalismo, quando se mete a fazer alguma coisa, faz muito bem feito). O problema não é de paladar, meu caro, é uma questão de princípios. Acredito que o mercado de fato melhore muitas coisas. Podem privatizar a telefonia, as estradas, as siderúrgicas. Mas não toquem no bolo! Ele não precisa de eficiência. Ele é o exemplo, talvez anacrônico, de um tempo que não é dinheiro. Um tempo íntimo, vagaroso, inútil, em que um momento pode ser vivido no presente, pelo que ele tem ali, e não como meio para, com o objetivo de.
Engana-se quem pensa que o bolo é um alimento. Nada disso. Alimento é carboidrato, é proteína, é vitamina, é o que a gente come para continuar em pé, para ir trabalhar e pagar as contas. Bolo não. É uma demonstração de carinho de uma pessoa a outra. É um mimo de avó. Um acontecimento inesperado que irrompe no meio da tarde, alardeando seu cheiro do forno para a casa, da casa para a rua e da rua para o mundo. É o que a gente come só para matar a vontade, para ficar feliz, é um elogio ao supérfluo, à graça, à alegria de estarmos vivos.
A minha geração talvez seja a primeira que pôde crescer e tornar-se adulto sem saber fritar um bife. O mercado (tanto com m maiúsculo como minúsculo) nos oferece saladas lavadas, pratos congelados, comida desidratada, self-services e deliverys. Cortar, refogar, assar e fritar são verbos pretéritos.
Se você acha que é tudo bem, o problema é seu. Eu vou espernear o quanto puder. Se entregarmos até o bolo aos códigos de barras, estaremos abrindo mão de vez da autonomia, da liberdade, do que temos de mais profundamente humano. Porque o próximo passo será privatizar as avós, estatizar a poesia, plastificar o amor, desidratar o mar e diagramar as nuvens. Tô fora.
Escrito por Antonio às 02h08
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O Brasil na faixa
(publicada no guia do Estadão)
Como muitos brasileiros, eu também andava por aí, cabisbaixo e macambúzio, a chutar tampinhas de garrafa e maldizer a vida, o governo, o mal-tempo e o técnico da seleção. Foi quando conheci o PSTM: Partido do Socialismo Tranqüilo e Moreno. Não se trata de mais uma nova sigla, fadada às velhas maracutaias: o PSTM tem um projeto civilizatório. Ou descivilizatório, como verá o amigo.
Quem me trouxe a luz da sabedoria foi um dos fundadores da agremiação, o ilustre professor Eduardo Correia. Mais tarde, um de seus discípulos, o Dr. Marcelo Behar, me pôs à par de todos os detalhes. (Eduardo fuma cachimbo, Dr. Behar trabalha de terno, de forma que não se pode duvidar da seriedade dos dois patrícios). O projeto do PSTM é de uma simplicidade tão grande (ou de uma grandeza tão simples), que cheguei a gargalhar de felicidade ao conhece-lo. Veja só: pega-se a extensão da faixa litorânea brasileira e divide-se pelo número de habitantes. O resultado é esplendoroso: 50 m de areia branca para cada cidadão. Chega de tentarmos ocupar o cerrado, povoar a caatinga, adentrar aquelas imensidões ermas. Já temos o sertão mítico de Euclides da Cunha e Guimarães Rosa para nosso desfrute. Para que queremos o real?
Com o PSTM o Brasil não vai pra frente, mas pro lado. Cada cidadão terá direito à sua faixa de areia e mais uns 200 metros de terra para dentro do país, apenas o suficiente para plantar uns coqueiros que dão coco, umas palmeiras onde cante o sabiá e o que mais lhe aprouver. A Amazônia e o Pantanal nós vendemos para a Europa, que já destruiu tudo o que tinha por lá e, cheia de culpa e de olho gordo nas patentes biológicas, irá cuidar das florestas. (Se não cuidar, também, já não será mais problema nosso). Os pampas a gente dá pra Argentina, em troca de carne, doce de leite, psicanalistas e centroavantes. O resto, vendemos para os EUA, que farão parques temáticos, resorts, campos de golfe e testes com armas nucleares.
Com o dinheiro da venda construiremos um SESC a cada tantos quilômetros, uns barzinhos que ofereçam peixe frito e cerveja gelada, uma linha de trem norte-sul para visitarmos amigos e parentes e sustentaremos uma ou duas gerações de vagabundos. Deitados eternamente em berço esplêndido (as cangas), poderemos enfim nos dedicar ao ócio, ao samba, ao futebol, à culinária e às grandes questões existenciais. Chegou a hora dessa gente bronzeada mostrar seu valor. Chegou a hora de assumirmos nossa vocação de Chile Atlântico. Chegou a hora de sermos felizes para sempre.
Escrito por Antonio às 02h05
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Choque de civilizações
(publicada no Guia do Estadão)
A única ligação entre São Paulo e o Rio de Janeiro é a Dutra. Fora isso, tudo nos afasta: o clima, a geografia, os costumes e, claro, o idioma -- ou você vai me dizer que João Gordo e Evandro Mesquita falam a mesma língua?
Esta barreira idiomática, acredito, é a principal fonte dos nossos problemas: ninguém se entende, acaba surgindo uma certa animosidade, a gente acha que foi chamado de estressado, eles pensam que ouviram alguma coisa sobre malandragem e, quando vamos ver, já era: nós ficamos sem praia e eles sem pizza. Perda total.
O choque de civilizações, no entanto, está com os dias contados. Tendo em vista a amizade entre os povos, a paz mundial e os bolinhos de bacalhau do Jobi, resolvi fazer alguma coisa. Mergulhei em intensos estudos carnavalescos, escaldantes pesquisas praianas – entre outras experiências extremamente arriscadas (para um paulista) -- e trouxe à luz, acredito, uma grande contribuição para o entendimento entre os dois estados: a Pequena gramática do carioquês moderno.
Nela, cheguei às três regras básicas da língua falada por aquele povo: a regra do R, a regra do S e a regra das vogais. As duas primeiras são de conhecimento geral: R no final da palavra ou no meio se fala arrastado (porrrrrrta, perrrrrrto), e o S transforma-se em X (mixxxxxto-quente, paxxxxta de dentexxxx). É na regra sobre as vogais, no entanto, que consiste a originalidade da minha descoberta e é ela que fará com que a minha gramática, assim como meu nome, ainda ressoem por aí muitos séculos depois que eu tiver ouvido repicar o último tamborim.
Enquanto em São Paulo somos alfabetizados com o A – E – I – O – U, as crianças do Rio de Janeiro aprendem A – Ea – Ia – Oa – Ua. Sim, há um A depois de cada vogal. Pegue qualquer palavra, como copo, pé e carro, por exemplo, e aplique a regra das vogais. Agora, fale em voz alta: coapoa, péa, carroa. Viu só? Aía, éa sóa voacêa pôarrrr A eam tuadoa, troacarrr S poarrr X e eaxxxticarrr o R quea fiaca óatiamoa.
O caminho inverso também funciona. Ao ouvir uma frase em carioquês, por exemplo: “Tua éa móa manéa, paualiaxxxxta oatarioa, voalta pra Móoaca”, transcreva-a, subtraia os As sobressalentes e você terá a sentença em paulistês.
Embora seja um grande avanço em face da estagnação em que estavam os estudos do carioquês por estas bandas, minha gramática ainda tem um enorme desafio a esclarecer: como é que o S vira R na palavra mearrrrmoa (mesmo)? E, mais ainda, por que é só nessa palavra? Tema apaixonante ao qual, prometo, retornarei em breve.
Escrito por Antonio às 02h03
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Para que serve um blog se você não escreve nada nele? Não sei. Na verdade, tampouco sei para que serve um blog se você publica. Mas prefiro ficar com a segunda dúvida. Por isso, à partir de agora, vou colocar as crônicas da Capricho, do Estadão e outras que surjam aqui nesse sótão empoeirado. Prometo me esforçar bastante...
Escrito por Antonio às 02h01
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